O Problema da Avaliação de Desempenho Docente
Pensei de facto duas vezes antes de publicar este texto, No entanto acho que devo fazê-lo para bem da minha consciência.
É de facto espantoso como um assunto, que não deveria trazer nada de mais, pode vir a tornar-se num motivo para que o ministro da educação perca o estado de graça a que teria inicialmente direito. Aparentemente afinal, o problema da avaliação não era da Maria de Lurdes Rodrigues ou da Isabel Alçada. Era antes, sim, um mal estar da população docente do país que não está interessada em ser avaliada: por um lado porque poderá sair mal na fotografia e, por outro, porque isso poderá ter influência na sua carreira e nos seus privilégios. Claro que isto não é afirmado, mas fica nas entrelinhas.
É espantoso como uma classe que tem por função ensinar e avaliar posteriormente o nível de aprendizagem por parte dos seus alunos, não esteja de acordo com a sua avaliação. Por outro lado não se compreende como neste país tudo funciona como na tropa: a idade é um posto. Ou seja, criaram-se as carreiras para que cada
pessoa possa subir na sua carreira até ao topo, dependendo apenas do tempo que se manteve como docente.
É também espantoso que todo este sistema esteja assente na forma de pensar dos sindicatos que, são os primeiros a defender os docentes para que eles não sejam avaliados. E dizem que a avaliação só traz inconvenientes nas escolas porque coloca uns docentes contra os outros. E que as avaliações não podem depender dos directores, nem de pessoas por eles nomeados porque isso iria levar a que eles usassem a sua posição e se vingassem das pessoas que com eles não concordam.
Agora pergunto eu: e não é assim que as coisas funcionam em todo o lado? os chefes e os patrões não são bem vistos porquê? porque muitas vezes têm pontos de vista inerentes às suas funções que os colocam em linha de fogo de interesses dos que são mandados e avaliados. Por isso, e porque os interesses são frequentemente contrários, as pessoas não se dão bem com os seus chefes e/ou patrões.
Apenas penso o seguinte:
1. É para mim claro que, devido à natureza humana, as pessoas que não são controladas nas suas tarefas, e que não têm motivações especiais por elas, não desempenhem as suas funções de forma acima da média. E acima da média não quer dizer excelente. Quer dizer apenas normal. No meu tempo de estudante chamava-se a isto a “Lei do Menor Esforço”. E não me digam que esta situação já não existe. Toda a gente sabe que assim é, mas todos parecem ter medo de atirar as primeiras pedras, apenas porque receiam que elas lhes possam cair em cima da cabeça.
2. Por essa razão, em todas as profissões e em todas as organizações, há pessoas cujas funções são o controlo da qualidade do trabalho. São os sub-chefes, os chefes, os donos, os patrões, os capitalistas, enfim, todos os que detêm uma posição hierárquica na “linha de produção”, qualquer que seja o produto fabricado, que lhes controlam os movimentos e produzem uma avaliação do trabalho produzido.
3. No anterior governo todos acharam que não poderiam existir duas categorias de docentes: os titulares e os outros… Então e agora o que é? os que são avaliados e depois os outros, os que estão acima da avaliação?
Contra mim falo. Sou professor há 34 anos. Atingi por idade o topo da carreira. Há 24 anos que sou director pedagógico de uma escola particular. Mas sempre fui avaliado no ensino particular. Sempre tive de dar satisfações ao coordenador de disciplina a quem tinha de entregar os testes que ia dar, e depois, até 15 dias depois, entregar a grelha de correcção dos testes de forma a que fossem avaliadas pelo coordenador antes dos testes serem entregues aos alunos. Isso apenas me obrigava a ter cuidado, a rever posições com frequência, a rever notas antes de as publicitar, a melhor preparar as aulas para que os resultados pudessem ser melhores.
Tenho consciência de que a avaliação dos docentes é um ponto dos mais complicados. Quando recebo as auto-avaliações dos docentes da minha escola, a tendência é que os próprios docentes se vejam como os melhores com avaliações equivalentes à excelência. Claro que eu tenho de fazer reparos e apontar situações em que a avaliação não é assim tão boa. Apenas apontar que, em muitas situações, a Excelência é uma miragem. Mas classificar um docente com menos de Bom é mesmo muito difícil. A não ser que seja mesmo negativo.
Na minha opinião, quando uma pessoa faz apenas o que é exigido de modo normal, do seu trabalho, faz um trabalho suficiente. A qualidade é um desvio da normalidade para a excelência. E a sua falta é um desvio para a mediocridade. Que avaliação faço de um aluno que apenas se esforça o suficiente para ter positiva e que não se importa de não ser o melhor da turma? Dou-lhe Muito Bom? Dou-lhe Excelente?
E é por tudo isto que eu considero que a única forma de resolver a questão seria a de criar provas finais em todos os anos a partir do 1.º ano até ao 12.º, de carácter nacional, e exames no final de cada ciclo. As provas seriam avaliadas pelos próprios docentes dos alunos a partir da grelha de correcção nacional. Desta forma ficaria clara qual a divergência das notas dos testes relativamente às notas internas; poderia depois ser completada com a informação dos coordenadores nomeados pelos directores e nesse aspecto cobriria o desempenho global do professor na escola, nas actividades fora da sala de aula: transdisciplinaridade, participação em actividades, iniciativa na criação de actividades na escola; inovação imprimida pelo professor às suas turmas e ainda outros aspectos que decerto todos nos lembraremos, como a assiduidade, o cumprimento de normativos internos administrativos, o relacionamento com os pais dos alunos, cumprimento dos programas, etc…
Claro que já sei que vozes se irão levantar contra isso, pois todos esses elementos iriam usar a sua posição e a avaliação para se vingarem nos colegas/professores…
Assim nunca chegaremos a lado nenhum. De facto, assim, é melhor que se faça como na Madeira por ordem do Alberto João jardim: todos os professores em princípio têm BOM… só se se portarem mal. Agora depende do que se tem por “portar-se mal”. Será isto mais objectivo?
Já no tempo dos romanos na península, houve um general romano que, ao fazer a nossa avaliação enquanto povo, dizia que éramos um caso perdido. Nem nos governávamos nem nos deixávamos governar. E assim continuamos.



