Pensamentos do Dia

Hoje li, numa página de Facebook, frequentada por professores, uma entrada de um leitor queixando-se do nível de Língua Portuguesa usada nas respostas ali colocadas. Queixava-se a docente de que tinha vergonha de ali entrar devido à imagem que os próprios professores davam de si próprios, seja pelas afirmações, seja pelos erros de sintaxe, de ortografia.

E eu fiquei a pensar nisto durante todo o dia, no fundo da minha mente. E no entanto, a resposta a esta questão é tão simples… Não há área nenhuma da sociedade humana em que a massificação não acabe por baixar os níveis de qualidade, os níveis de imagem. E o que se passa no ensino acaba por ser apenas mais um exemplo disso mesmo.

Ser professor não implica ser uma pessoa diferente, mas implica ter um cuidado diferente na imagem que se transmite no nosso dia-a-dia. Porque nós somos os modelos. Para as crianças e jovens, mas também para os pais.

Já é suficientemente duro que haja pais que não compreendam o papel do professor quando ele avalia as crianças. Acham sempre que eles estão contra os filhos e não percebem que o professor tem um papel pedagógico, ao chamar a atenção para os desvios de atitude das crianças, os quais terão uma consequência direta nas suas aquisições.

E isto deixa-me triste, profundamente triste. Não estamos a trilhar os caminhos certos para uma correta educação dos nossos jovens. A fatura será paga tarde, muito mais tarde.

escolafutura

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It’s a Mad, Mad, Mad, Mad World…

Estando de férias, a tendência para mergulhar nas notícias dos jornais  é muito maior. Há tempo, podemos ler as notícias com calma. Depois o que acontece é que ficamos cheios e recostamo-nos a pensar na forma como a civilização humana tem vindo a evoluir.

A tendência é para ficarmos preocupados, pois parece que o mundo está a enlouquecer. No entanto uma análise mais profunda poderá levar-nos a pensar que provavelmente sempre foi assim em todo o mundo. A diferença é que hoje a informação está à distância de um clic. Com fotos, imagens fortes, vídeos, músicas… Só não tem (ainda) cheiro porque essa característica deve ser difícil de conseguir realizar digitalmente. Mas lá chegaremos

Ficamos então a pensar nos horrores que nos são oferecidos nos jornais e nas televisões e ficamos a pensar o que aconteceu ao senso comum. Por que razão a vida não tem a mesma calma e tranquilidade que tinha antigamente (pelo menos aparentemente). Por que razão os valores transmitidos pelas religiões assumem nuances tão fortes e tão diferentes em locais aparentemente tão afastados uns dos outros.

Mas temos de ter consciência de que o senso comum não é um senso objetivo e igual para todos. Está estratificado por grupos sociais, e mesmo por grupos profissionais. O que faz com que na realidade não haja um senso comum alargado.

Por exemplo: no outro dia partilhei no FB um texto cujo nome era “10 atitudes que os pais NÃO devem ter com os filhos”.

São elas as seguintes:

  1. Comparar com os irmãos ou primos ou amigos;
  2. Fazer chantagem emocional;
  3. Elogiar exageradamente;
  4. Ser superprotetor;
  5. Comprar a criança com presentes;
  6. Deixar a criança fazer tudo o que deseja;
  7. Não participar dos principais momentos da vida do seu filho;
  8. Fingir que o filho nunca mente e nunca erra;
  9. Dizer uma coisa e fazer outra;

10 Prometer e não cumprir.

Qualquer docente ou psicólogo numa escola lhe dirá que estas normas são apenas senso comum, se tivermos em conta que as crianças aprendem por modelação do que veem fazer e dizer. Diríamos então que são normas do senso comum.

Mas se analisarmos bem quantos pais há que não incorrem recorrentemente em pelo menos três ou quatro das situações referidas ao longo da educação dos seus filhos?

Onde fica então o senso comum? É senso comum só para educadores? E para as outras pessoas? E onde fica o aforismo “ Por bem querer, mal haver”?

E falo em senso comum apenas para confrontar duas notícias que eu chamei à colação apenas para justificar este meu arrazoado filosófico. Senão vejamos:

Notícia 1:

Na Libéria

 “Monrovia – Homens armados atacaram um centro de isolamento para pacientes com o vírus ebola em Monrovia, capital da Libéria, o que provocou a fuga de vinte pacientes, informaram fontes concordantes neste domingo. (…) Os agressores, em sua maioria jovens, armados com paus, entraram no centro, uma escola no subúrbio de Monróvia, segundo Rebecca Wesseh. Segundo ela, eles gritaram palavras hostis à presidente da Libéria, Ellen Johnson Sirleaf, e asseguravam que “não há ebola” no país. Este ataque provocou a fuga de pacientes e enfermeiros.”

Notícia 2:

ISIS

Raqqa – “Jolly jihadists show Dairieh around Raqqa and the former Syrian-Iraqi border, smiling beatifically and raising an index finger to bear witness to the oneness of God. We discover a merciless theocracy, where women are not seen, morals police patrol with weapons, children clamour to kill “infidels” and dismembered or crucified corpses are displayed in the streets.”

Para terminar deixo o osso duro de roer… E o que podemos nós, comuns mortais, fazer para que tal estado de coisas mude? Será que temos capacidade para de alguma forma tentarmos interferir?

Não dou a minha opinião. Apenas quero fazer com que os que me leem façam a pergunta a si próprios e procedam de acordo com a sua consciência.

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AS MINHAS FÉRIAS GRANDES

( Este texto foi criado em sala de aula, com a história de um aluno relativamente às suas férias grandes. Como não tinha feito a composição pedida, decidimos criar a composição a partir das suas referências, servindo de exemplo relativamente ao processo a usar para elaborar uma composição.)

Onde? Vila Nova de Mil Fontes, Viseu, Almeirim, Verdizela, Casa em Lisboa

Este ano , nas férias grandes, estive em várias cidades e sítios de Portugal.

Nas primeiras duas semanas de Julho, estive em Vila Nova de Mil Fontes com a minha mãe e a minha irmã. Estivemos a acampar no parque de campismo. Lá havia um bom restaurante onde se comia bem, tinha um salão de jogos onde eu costumava jogar« snooker» e ping-pong ou setas.

A vila era muito limpinha, não havia lixo nenhum no chão. As casas eram vivendas, todas recentes, embora houvesse algumas abandonadas. As paisagens eram muito giras, principalmente ao pôr do sol.

Normalmente ia à praia, mas às vezes também íamos à piscina. Eu gostava mais da praia porque era mais fundo do que a piscina, e havia ondas. Água sem ondas não tem piada.

Depois de Vila Nova de Mil Fontes, regressei a Lisboa onde estive cerca de duas semanas até ir para Viseu. Aqui vivem os meus avós paternos e os meus tios. Os meus avós já estão reformados, mas o meu avô ainda vende pipocas, no parque da cidade.

Em Viseu o que eu gostei foi da diversão no rio: por vezes ia nadar e mergulhar, outras vezes ia à pesca.  Além disso a pesca era dentro de um barco, o que tornava as coisas mais giras. Também fui a uma pista de gelo, coisa que eu também gostei tanto que fui lá três vezes. De tarde, costumava ver televisão.

De Viseu, da casa dos meus avós paternos, fui directamente para Almeirim para casa dos meus avós maternos.

Aqui a vida era diferente pois os meus avós vivem numa quinta: é só animais, desde galinhas a touros, pois estamos no Ribatejo. Passava os dias na rua, nas brincadeiras normais no campo: atirar pedras aos pardais, trepar às árvores, pescar no rio, e assim por diante. Além disso também trabalhei no campo a ajudar os meus avós nas colheitas: tomate, couves, cebolas, abóboras, alfaces e depois as peras e maçãs.

Depois voltei a Lisboa até ir para a colónia de férias na Verdizela. Estive lá duas semanas  em que  fiz muitas actividades e jogos, ia à praia, à piscina e fizemos até uma visita a um parque aquático em Santarém.

Por fim, já no fim das férias em finais de agosto, voltei para Lisboa e passei cá as últimas semanas. Foi giro porque estava sozinho em casa, tratava da relva e dos animais e aproveitei para fazer os trabalhos de férias.

Por fim veio o dia 10 de Setembro e a escola começou. Gostei muito das minhas férias porque pareceu que o tempo passou a voar.

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Memórias de um grande amigo

De facto, ao longo da nossa vida há pessoas que nos deixam marcas indeléveis, que ficarão sempre presentes na nossa memória. Quando me propus fazer uma composição, como exemplo, para que os alunos que se estão a preparar para os exames de segundo ciclo percebessem quais os cuidados a ter,  logo me veio à memória a figura incontornável de padre Branco Duarte.

A forma como eu o conheci, foi um pouco dramática. Quando ele veio ter comigo a dizer-me que o táxi estava à espera e que ele me acompanhava, olhei para ele surpreendido, pois nunca o tinha visto no colégio. Ou pelo menos nunca tinha reparado nele.

A viagem foi dolorosa, pois tinha-me sido dito que eu tinha de vir ver a minha mãe que estava muito doente. A meio do caminho, em Coimbra, junto ao Mondego, convidou-me a passear junto ao pontão do rio, ali mesmo perto da baixa. E foi aí que ele me disse que eu tinha de ter muita força, pois a minha mãe tinha falecido e ele sabia quão importante ela tinha sido para mim.

Lembro-me de que na altura não chorei. A tensão nervosa e a situação anormal de eu estar a quilómetros do colégio a conversar sobre a minha mãe com uma pessoa que eu nunca tinha visto, fizeram com que as minhas lágrimas secassem.

O P.e Branco Duarte, de quem eu viria a tornar-me grande amigo nos anos seguintes, tinha características únicas: era alto, atlético, não costumava vestir batina ( o que para mim era estranho, pois, no colégio, os padres vestiam todos batina ), e a única coisa que fazia as pessoas olhar era o colarinho de padre, que, por ser diferente, dá muito nas vistas.

Usava óculos de uma graduação impressionante, quase pareciam fundos de garrafa, daquelas garrafas de espumante, pois faziam vários círculos brilhantes e os olhinhos ficavam, pequeninos, lá no fundo. O cabelo era escorrido, tendo uma franja que lhe caía para os olhos e que ele retirava com um gesto brusco de cabeça, como se estivesse a cabecear uma bola num jogo de futebol.

Depois desse dia, só o voltei a ver no início do ano seguinte, no colégio, quando entrei na primeira aula de Filosofia. Nem sei bem o aspeto com que devo ter ficado quando olhei para ele, pois devo ter feito figura de parvinho: especado, sem me mexer, boquiaberto a olhar para ele que retribuía o olhar, sorrindo…

Nos meses que se seguiram, foi o meu grande companheiro dos meus dias de fim de semana. Passávamos as tardes de sábado a jogar ping-pong na sala de jogos do sexto ano. Eram momentos deliciosos, pois jogávamos e discutíamos filosofia e aspectos gerais da vida, das relações humanas, de política ( embora fosse proibido falar de política, nós fazíamo-lo com um grande à-vontade, até porque nessas tardes eram poucos os colegas que se encontravam no salão de jogos…).

Tinha uma predisposição natural para a boa disposição, e isso fazia dele um excelente amigo, pois qualquer que fosse o problema, podíamos recorrer a ele com toda a facilidade e ele encontrava sempre a solução certa e equilibrada. Pelo menos comigo foi assim.

No final do meu sétimo ano do liceu, saí do colégio e vim para Lisboa. Os contactos com as Caldinhas esfumaram-se. No entanto, passados dois ou três anos reencontrei um antigo colega do INA que me contou então sobre o Branco Duarte.

Contou-me que ele já não era padre, que tinha conhecido uma rapariga por quem se tinha apaixonado, de tal forma, que tinha casado e até já tinha filhos. Em certa medida agradeci aos céus, pois uma pessoa tão interessante como ele, era um desperdício como padre.

Ainda hoje, quando me sinto pressionado pelos problemas da vida, recordo a calma com que o P.e Branco Duarte enfrentava os problemas como se eles na realidade não valessem nada. E, sim, continuo na minha mente a chamar-lhe «padre« pois, para mim, ele será sempre o Padre Branco Duarte.

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«ENFRENTAR A CRISE: VIVA O EMPREENDEDORISMO»

FESTA FINAL 2012 / 2013

PEÇA DE TEATRO ESCRITA PELOS ALUNOS DO 5.º E 6.º ANOS

«ENFRENTAR A CRISE: VIVA O EMPREENDEDORISMO»

 

15 DE JUNHO DE 2013

 PREFÁCIO

A razão de ser desta peça foi a participação das turmas do 5.º e 6.º anos na Festa Final.

Quando inquiridos sobre o que fazer para participação na Festa Final, eles recusaram fazer «qualquer coisinha» como cantar uma canção ou coisa do género. Apresentaram então a hipótese de criar uma peça de teatro em que todos participassem.

O segundo passo foi decidir de que forma nós trataríamos o tema global de escola que este ano era «As Profissões». Foi então que surgiu a ideia de tratar da situação económica atual, com a crise social e financeira, puxando o centro da questão para a valorização do conhecimento e a oposição aparente entre cursos superiores, conhecimentos, experiência e empreendedorismo.

Desta forma, como a peça era representada a 15 de junho, pensou-se em colocar duas famílias e respetivos filhos em confronto relativamente a estudos, cursos, notas, exames e o conceito de empreendedorismo. Colocaram-se em oposição a opinião dos pais sobre a importância dos cursos e a posição dos filhos em quererem levar avante uma outra ideia, a sua, recusando a dos pais.

No diálogo surgem outras posições de pessoas do povo, como o homem do grelhador ou a da amiga de Margarida e o marido, que ficou desempregada e arranjou outra tarefa na área das artes gráficas.

A peça começou a ser desenvolvida por volta de 12 de maio a cerca de um mês da representação na Festa Final. Os diálogos foram construídos em aula, com os alunos divididos em grupos, e levou cerca de duas semanas; Depois passou-se à gravação das vozes, no sentido de criar uma trilha sonora com os diálogos, fazendo os alunos o «play-back» em palco. Isto foi terminado já em fins de maio, princípios de junho;

Os alunos ensaiaram apenas 5 vezes: uma vez no dia 7 de junho, e depois no dia 12 de tarde ( dia 13 de junho estivemos fechados no feriado de Santo António) e ensaiamos 3 vezes na sexta feira dia 14 de junho, sendo a última a seguir ao almoço.

A encenação foi desenvolvida por mim, enquanto professor de Língua Portuguesa, com as ideias dos alunos, na perspetiva de manter um equilíbrio e economia de materiais e gastos .

Os alunos estão de parabéns. A ideia foi bem concebida e posta em prática de forma exemplar.

Alfragide, 16 de junho de 2013

José Crispim Romão

Professor de Língua Portuguesa, 5.º e 6.º anos, 2012/2013

A PEÇA

A peça trata da crise social, económica e financeira que o nosso país atravessa. Num bairro antigo de Lisboa, duas famílias encontram-se num arraial dos santos populares, na noite de Santo António. Uma das famílias é mais abastada, sendo o José um empresário de uma importante marca de louças sanitárias. A outra família, é uma família de classe média, sendo o Zé Pedro funcionário de confiança do José, dono da fábrica.

Ambas as famílias têm três filhos. A família do José é composta por maria Teresa, a mãe do José que é muito assertiva e que gosta de dar a sua opinião. A Melissa, muito preocupada com os filhos, principalmente com o mais velho, devido ao facto de achar que ele não encontra uma decisão relativamente ao futuro.

Os filhos desta família são o Miguel, o mais velho, rapaz pouco estudioso e dado a boémias, saídas nocturnas e pouco esforço na faculdade. A Sara, a filha do meio, rapariga certinha, aluna do secundário, que gostaria de vir a ser gestora para seguir as pisadas do pai e tomar conta da fábrica mais tarde e o Luisinho, o mais novo, que não gosta nada de escola, anda no 2.º ciclo e não estuda nada, havendo mesmo problemas na escola onde anda a ser acompanhado pela psicóloga.

A família do Zé Pedro, é composta pela avó Ermelinda, mulher do povo, já com alguma idade, a Margarida, mulher do Zé Pedro e que ficou recentemente desempregada.

O casal tem três filhos. O Carlos, o mais velho, aluno que está a terminar a faculdade de medicina e que já tem emprego oferecido num hospital. A Joana, a filha do meio que gosta secretamente do Miguel, mas que só pensa em rapazes, discotecas, saídas à noite, etc… Por último a Mariana, miúda irreverente e pouco estudiosa, que tem uma relacionamento um pouco tempestuoso com a irmã, pois está sempre a gozar com ela por gostar do Miguel, o filho mais velho do patrão do pai.

As duas famílias encontram-se num arraial popular na noite de Santo António e conversam sobre a crise, o desemprego, os cursos dos filhos, os problemas da escola e a mentalidade dos filhos que não se importam com a situação e não se preocupam com o futuro. No entanto, veremos que não é bem assim: apenas não concordam totalmente com a visão dos pais relativamente a cursos superiores e têm outras ideias para fazer a sua vida.

Nota: os números entre parênteses a seguir ao nome de cada personagem representam o número de falas de cada uma, necessário para o controlo de gravação da pista sonora.

ATO 1

Cena I:

 (Pai e mãe da família do empresário José entram no recinto do arraial dos santos populares, juntamente com os avós. Discutem os atrasos dos filhos.

JOSÉ (1) – Ah, estes meus filhos são mesmo irresponsáveis! É para vir a família toda e eles chegam sempre atrasados!

MARIA TERESA (1) – Ó José, chega de refilar! Os teus filhos já têm maturidade suficiente para virem sozinhos à hora que quiserem.  Se calhar, quando tinhas a idade deles, fazias a mesma coisa…

JOSÉ (2) – Ai, não fazia, não… Se fizesse não me ficava a rir.

MELISSA (1) – José, não refiles! Nestas festas há muita gente e se te ouvem falar dos teus filhos dessa maneira, ficamos com má reputação.

 JOSÉ (3) – Bem visto, querida, o meu negócio ainda fica com má fama e as pessoas deixam de comprar a minha grande invenção: sanitas anti entupimento.

(Nisto a família do Zé Pedro aparece no recinto.)

JOSÉ (4) – Pois, mas voltando ao assunto. Vocês estão sempre a desculpá-los. Se não lhes aparassem os golpes, eles não o faziam. (Após uma pausa ) Olha, está ali o ZÉ PEDRO  com a família… Podíamos convidá-los a sentarem-se connosco na mesa. Aliás tenho de discutir uns assuntos com ele, pois não tivemos tempo de nos reunir…

MELISSA (2) – És sempre o mesmo! Então agora vens para o arraial discutir os negócios da empresa?

JOSÉ (5) – Se não fossem os negócios da empresa, não andavas sempre a comprar vestidos…

MARIA TERESA (2) – De facto, tu não tens emenda. Devia-te ter dado umas palmadas na altura certa…

Cena II:

(Aproximam-se o ZÉ PEDRO e a sua família)

ZÉ PEDRO (1) – Boa noite, Sr. Doutor. Está tudo bem? Boa noite D.ª MELISSA. Como está, D.ª MARIA TERESA.

MELISSA (3) e MARIA TERESA (3) – Como estão? Chegaram cedo.

MARGARIDA (1) – Viemos, sim. Tínhamos de arranjar um lugar sentados. Ai,  a minha mãe já não aguenta as pernas se estiver muito tempo de pé. A idade não perdoa…

MARIA ERMELINDA (1) – É verdade! Já no ano passado, depois do arraial, andei uma semana que não me conseguia mexer.

MELISSA (4) – (dirigindo-se à Margarida) – Então, os seus filhos? Boas notas na escola?

MARGARIDA (2) – Vai-se andando! Eles daqui a pouco já devem aparecer. Não sei se vêm, mas adoram arraiais.

JOSÉ (6) – Sentem-se ali naquela mesa que eu vou com o ZÉ PEDRO beber uma imperial. Quero discutir uns assuntos com ele.

MELISSA (5) – Está bem, querido, vai lá falar dos teus negócios. Nós vamos pedindo a comida…

 

Cena III:

(Entretanto os filhos da família do José entram no recinto do arraial. Vem a discutir, pois detestam aqueles ambientes e não conhecem ninguém com quem se possam divertir. Chegam à festa, todos bem «enfarpelados» e a cheirar a água-de-colónia, visto que pretende sair depois da festa)

MIGUEL (1) – Eh pá! Isto vai ser uma «g’anda» seca. Os cotas têm a mania de vir a estas cenas, ainda não percebi bem porquê. Não topamos quase ninguém no bairro, é tipo uma seca. Onde vamos depois de basarmos daqui?

SARA (1) – Eu não sei se vou a algum lado. O papá pediu para eu o ir ajudar lá na fábrica amanhã de manhã, a organizar os papéis para a contabilidade.

MIGUEL (2) – Tu também só sabes fazer a vontade ao velho. Por causa disso está sempre a mandar-me bocas. Que eu não estudo, não ajudo na fábrica, sempre a mesma treta. Ganda seca! P’ra ele nunca faço nada bem.

LUISINHO (1) – Vocês estão sempre a discutir. Parem lá com isso. Até parece que estão sempre a competir para ver quem é o melhor filho! Parvalhões!

MIGUEL (3) – Cala lá essa boca senão daqui a bocadinho levas uma lamparina!

LUISINHO (1.1) – Vê lá, vê!

SARA (2) – Parem lá com essa conversa parva. São mesmo bebés!

 

Ato II

Cena I:

(Pai e mãe pobres conversam com os pais ricos sobre o ano escolar dos filhos)

ZÉ PEDRO (2) – Trouxemos-vos aqui uns caracóis para vocês provarem…

MARIA ERMELINDA (2) – Aposto que não são melhores do que os que eu faço. Deixa-me lá provar um!

JOSÉ (7) – De certeza que não, D.ª Ermelinda. Mas os caracóis hoje em dia estão a ficar cada vez mais caros.

MARGARIDA (3) – Se fossem só os caracóis!

MELISSA (6) – O que vale é que o negócio do José corre bem. Senão não sei onde íamos parar.

MARGARIDA (4) – Se não fosse o emprego do Zé Pedro, nós passávamos dificuldades.

JOSÉ (8) – É verdade. O Zé Pedro disse-me no outro dia que tinha ficado desempregada. Ainda não conseguiu encontrar nada?

MARGARIDA (5) – Cada vez é mais difícil arranjar trabalho. Quando vou ao centro de emprego são filas infernais.

MELISSA (7) – Eu nem quero pensar nesses assuntos. Eu estou preocupada com o meu Miguel. Acabou por reprovar este ano, por causa das noitadas. Assim nunca mais vai acabar o curso…e com esta crise, não sei o que ele vai fazer.

MARGARIDA (6) –  A minha Joana também já não tem emenda. Reprovou novamente no nono ano.  É só rapazes e discotecas… Nunca mais ganha juízo.

MELISSA (8) – Ah, a minha Sara é muito boa rapariga. Agora até anda a ajudar o meu José lá na fábrica. E parece que trabalha muito bem. Já não posso dizer o mesmo do mais pequeno. Lá na escola o Luisinho anda sempre a arranjar problemas. Agora anda a ter apoio do psicólogo.

MARGARIDA (EXTRA) – A minha Mariana, também não vai muito bem lá na escola. O que ela gosta mesmo é de implicar com a irmã.

MARGARIDA (7) – No caso do meu Carlos, o mais velho,  eu não tenho de me preocupar. Está a terminar medicina com excelentes notas e já tem um convite para ir trabalhar num hospital.

MARIA TERESA (4) – O grande problema é que não vejo nenhum espírito de iniciativa no meu neto mais velho, o Miguel. Mesmo que não tirasse o curso deveria interessar-se por alguma coisa que lhe proporcionasse algum meio de vida.

MARGARIDA (8) – Olhe, a minha vizinha é que é um bom exemplo… Ficou desempregada e decidiu dedicar-se às artes… Fez um «atelier» em casa e vende para fora. E parece que está a ter sucesso. Pelo menos vejo-a atarefada com as encomendas. Pode ser um negócio pequeno, mas pelo menos gosta do que faz e demonstra iniciativa.

Cena II:

(Os filhos da família do Zé Pedro entram também no recinto e encontram os filhos do José. Trocam opiniões sobre o programa da noite, depois do jantar no arraial. Começam a surgir pormenores escolares de cada um, vistos pelo prisma dos filhos.)

JOANA (1) –  Isto está muito parado. É só cotas.

CARLOS (1) – Ainda é cedo. Só são dez horas da noite. As pessoas ainda estão em casa a jantar.

MARIANA (1) – Olha, Joana! Está ali o Miguel! Não queres ir dar-lhe um beijinho?

JOANA (2) – Cala-te que eu não quero que ninguém oiça.

MARIANA (2) – A rebelde cá do bairro está envergonhada? UUUUUh!

CARLOS (2) – Mariana, vê se te portas decentemente.

(Aparecem o Miguel, a Sara e o Luisinho Miguel dirigindo-se à Joana)

MIGUEL (4) – Finalmente alguém de jeito! Já estava farto de estar aqui a secar sozinho!

JOANA (3) – Acabámos de chegar. Quais são os teus planos para esta noite?

MARIANA (3) – Espero que seja alguma coisa divertida.

JOANA (4) – Já a formiga tem catarro! Ainda não tens idade para isto!

SARA (3) – Não sejas assim para a tua irmã.

JOANA (5) – Ela é que está sempre a meter-se comigo.

CARLOS (3) – Então Sara, mudando de assunto? Os teus exames? Correram bem?

SARA (4) –  Sim, correram bem. No início estava um bocadinho nervosa, mas os testes correram bem e tive notas excelentes.

CARLOS (4) – E qual a área que vais escolher?

SARA (5) – Estou a pensar em seguir gestão, porque depois posso seguir as pisadas do meu pai. Gostava muito de gerir a fábrica.

CARLOS (5) – Ainda bem. Se gostas de ser empresária e de correr riscos, é o caminho certo. Nós devemos lutar pelo que consideramos certo. Eu por mim, prefiro optar pelo seguro.

LUISINHO (2) – Eu vou ter com os pais porque estou cheio de fome. Quero ver se como qualquer coisa.

TODOS: Nós já lá vamos ter.

Cena III:

(Os jovens aproximam-se da mesa dos pais. Estes continuam a falar sobre a crise e a forma de resolvê-la.)

ZÉ PEDRO (3) – Em relação a outro emprego, eu já pensei que tu podias trabalhar na área da costura e abrir um atelier de arranjos de roupa, ou assim…

MARGARIDA (9) – Até que nem era uma má ideia. Mas onde vamos arranjar dinheiro para o investimento inicial?

JOSÉ (9) – Então e se eu lhe arranjasse alguma coisa lá no escritório da fábrica? Estava interessada?

MARGARIDA (10) – Claro que estava. Isto está tão difícil. Ficava-lhe muito agradecida.

MELISSA (10) – Olha, vêm ali os nossos filhos! Já se encontraram… Vêm todos em grupo.

LUISINHO (3) – Então já pediram alguma coisa para comer? Eu estou cheio de fome.

SARA (6) – Então de que é que vocês estão a conversar?

MIGUEL (5) – Só pode ser de coisas chatas… trabalho, escola, cursos…blá,blá,blá…

JOSÉ (10) – Tu hás de ter de crescer um dia, criar família, ter um emprego a sério… E não te estou a ver preocupado com o assunto… Enquanto os papás avançarem com o dinheiro, tu estás na maior.

MIGUEL (6) – Mas desde quando é que um curso é a resposta para tudo? Eu posso arranjar um emprego como empresário em nome individual… No outro dia houve um colega meu que me perguntou se eu queria criar uma escola de surf com ele. E eu gostava muito… o surf é o meu desporto preferido.

MARIANA (4) – Eu cá estou com fome. Queria comer alguma coisa.

LUISINHO (4) – Boa ideia. Nós viemos cá para comer e não para conversar sobre emprendorismo.

SARA (7) – Em-pre-en-de-do-ris-mo! Pelo menos diz bem a palavra!

LUISINHO (5) – Isso!…

JOSÉ (11) – ( Dirigindo-se ao empregado) – Olhe…Pssst! Se faz Favor!

EMPREGADO (1) – ( Aproximando-se ) – O que desejam?

JOSÉ (12) – Traga meia dúzia de bifanas e quatro pires de caracóis.

EMPREGADO (2) – E para beber?

JOSÉ (13) – Traga dois jarros de sangria, duas colas frescas de litro e meio, e duas garrafas de litro de água…

EMPREGADO (3) – ( Para o homem do Churrasco) – Manel, 6 bifanas para a mesa 3! ( Para o bar) Quatro de caracóis, duas sangrias, duas colas grandes e duas águas grandes! Rápido! Para a mesa 3!

Ato III

Cena 1

(O homem do churrasco ouve a conversa e dirige-se a ambas as famílias)

HOMEM DO CHURRASCO (1) – ( Entrega os pratos das bifanas) -‘Tava aqui a ouvir a vossa conversa, e realmente os tempos de hoje estão cada vez mais difíceis: pouco dinheiro, muito desemprego… Mas mesmo assim, uma pessoa não pode ficar parada. As coisas não caem do céu aos trambolhões! Olhem p’ra mim! Perdi o emprego, mas não quis ficar parado… Vim pr’aqui vender febras e sardinhas…

HERNÂNI (1) – Eu, com a minha idade, também já passei por muito. Já houve alturas em que não tive emprego e tive que arranjar uns biscates. Já fiz de tudo: já fui trolha, já fui canalizador, já dei serventia a electricistas… E nada disto tem a ver com a arte que aprendi, mas não podemos deixar que o espírito empreendedor morra dentro de nós!

ALBERTO (1) – Na minha opinião, com a situação de crise actual, o que era importante para os miúdos era tirarem um curso e garantirem um emprego seguro, mesmo que não fosse muito bem pago.

HOMEM DO CHURRASCO (2) – Deixe lá os rapazes em paz. Eles se calhar até têm razão para não quererem tirar um curso! O que é que eles fazem com o canudo? Nada!

HOMEM DO BAR (1) – (gritando para o empregado) – Ó Jarbas! Já aqui estão os caracóis a arrefecer!

SARA (8) – Isso nem sempre quer dizer nada. O conhecimento é importante e transforma uma pessoa. Mas isso não quer dizer que se tenha de esperar pelo emprego na área de que se tirou o curso… (Dirigindo a palavra ao avô Alberto) – O´avô, eu até posso concordar com o que disseste, mas acho que uma pessoa deve seguir o seu sonho, e o meu sonho é seguir as pisadas do meu pai! Uma pessoa deve fazer aquilo que gosta.

EMPREGADO (4) – ( O empregado traz os caracóis ) Aqui estão os caracoizinhos! Já trago as bebidas!

HERNÂNI (2) – Mas por vezes aquilo de que nós gostamos não resulta. Temos de ter sempre um plano B.

HOMEM DO BAR (2) – (  Para o Jarbas) – Olha as bebidas! Não as deixes aquecer!

SARA (9) – Mas apesar de às vezes o que nós gostamos não nos dar dinheiro, devemos tentar desenvolver aquilo que nós gostamos, para que quando se feche uma porta, se abra sempre uma janela!

MIGUEL (7) – Pois, aquilo que eu acho é que os nossos pais têm de parar com esta cena dos cursos! Podiam era apoiar-me na criação da minha escola de surf.

EMPREGADO (5) – (Com as bebidas) – Agora são as bebidinhas! Acho que está tudo! Bom apetite.

JOANA (6) – Pois, eu também acho! No meu caso eu gostava de abrir uma discoteca ou um bar.

MIGUEL (8) – Essa era uma cena fixe!

SARA (10) – Pois, ‘tá-se mesmo a ver! Estavas lá sempre caído!!!

Cena II

(Margarida vê a sua vizinha, Amélia que entrou no recinto com o seu marido, António, mecânico de automóveis.)

MARGARIDA (11) – D.ª Amélia! D.ª Amélia! Venha pr’aqui pr’ó pé de nós! Estava aqui a falar à D.ª Melissa da sua nova iniciativa… Venha cá contar como se está a dar!

AMÉLIA (1) – Olá boa noite a todos!. Não vale a pena incomodarem-se… Nós vamos sentar-nos ali noutra mesa.

JOSÉ (14) – Nem pensar! Eu vou já arranjar umas cadeiras… Vá, sentem-se aqui. ( virando-se para a D.ª Amélia) Então conte-nos lá a sua aventura! Estávamos aqui a ver se conseguíamos convencer os jovens a tomarem juízo e a estudarem para arranjarem um bom emprego.

AMÉLIA (2) – Ah, sabe, isso dos estudos pode ser muito bom, mas por vezes não é o canudo que nos safa! O que interessa é termos uma força cá dentro que nos ajude a pegar o touro pelos cornos… O que importa é o que está dentro da nossa cabeça e a massa que nos está no sangue.

MELISSA (11) – Pois, D.ª Amélia…mas se eles tirarem um curso pelo menos sempre têm outras hipóteses de encontrarem um outro emprego mais bem remunerado…

MARIA TERESA ( 5)  – Eles agora não têm a vida nada facilitada. Antigamente as coisas eram mais calmas e seguras. Sabíamos com o que contávamos…

AMÉLIA (3) – É verdade D.ª Maria Teresa… Mas nos tempos que correm, uma pessoa não se pode deixar vencer. Tem de enfrentar a situação. Se eu ficasse à espera de encontrar o emprego que eu queria, quem me fazia entrar dinheiro lá em casa? Só o vencimento do meu marido não chega… e, além disso, a carpintaria dele também está com problemas… O pessoal não tem dinheiro, não compra móveis, nem tem dinheiro para renovar a casa ou …

ANTÓNIO (1) – Nem móveis nem outras coisas. Antigamente os soalhos, os tetos falsos de madeira, os forros dos telhados ainda nos traziam algum dinheiro, pois o pessoal na primavera fazia os arranjos da casa e dos telhados. Agora, com os novos materiais artificiais de plástico, a madeira é sempre mais cara e o pessoal não tem dinheiro! Quem é que manda agora fazer uma mobília de quarto em madeira maciça? Só de madeira prensada, mas eu não gosto desses materiais…

ALBERTO (2) – Eu de facto nunca vi nada igual. Nem no tempo da segunda guerra, as coisas estiveram tão feias… Havia falta de coisas, bichas no pão, mas havia trabalho para todos os que queriam trabalhar…

MIGUEL (9) – Pois, a ganharem uma miséria, que era aquilo que se pagava no tempo do Salazar! E biquinho calado senão ainda ias parar à prisão.

MARIA TERESA (6) – Cala-te lá com essas politiquices… Depois queixa-te que o teu pai se passa contigo! Muda lá de assunto…

 

 

 

 

Cena III

ZÉ PEDRO (4) – Então e o menino Miguel, o que pensa fazer no futuro?

MIGUEL  (10) – Não sei bem! Mas o curso que o meu pai quer que eu tire, essa não! Quero ver se me lanço na minha própria empresa. Quero ver se monto uma escola de surf.

ANTÓNIO (2) – Acho que faz muito bem em pensar assim. Com espírito empreendedor é que o nosso país pode sair desta crise. Temos todos de dar a volta. Se precisar de ajuda, diga que eu ajudo no que puder.

JOANA (7) – Eu também ajudo. É só pedires que eu venho logo a correr. Também acho que temos todos de fazer algo diferente.

ZÉ PEDRO (5) – Assim mesmo é que eu gosto de ouvir a juventude! Vamos fazer uma saúde! Levantemos os copos pelos nossos filhos!

FILHOS LEVANTAM OS COPOS EM UNÍSSONO – Jovens de todo o país! Deixem-se de esperar que o futuro venha ter com vocês! Não deixem de estudar! Mas vocês são o futuro e ele está à vossa espera! Sejam empreendedores! Sejam criativos! Sejam os Homens de amanhã!

FIM

Anexo I:

Lista de Personagens

Alberto – Marido de D.ª Maria Teresa, pai do José empresário (representado por Ricardo Pessoa)

Maria Teresa –  Mãe do empresário José ( representada por Carolina Rosa )

José – Empresário dono da fábrica de louças sanitárias ( representado pelo Guilherme Costa)

Melissa – Mulher de José ( representada por Catarina Carapinha

Miguel – Filho mais velho de Jo´se e Melissa ( representado por Gonçalo Oliveira)

Sara – Filha do meio de José e Melissa ( representada por Sofia Carvalho )

Luisinho –Filho mais novo do casal ( representado por  Rui Almeida)

Hernâni – Pai do Zé Pedro ( representado por Francisco Oliveira)

Maria Ermelinda – Mulher de Hernâni ( representada por  Clara Parente)

Zé Pedro – Empregado do empresário José e filho de Hernâni e Maria Ermelinda ( representado por Manel Arcângelo

Margarida – Mulher de Zé Pedro ( representada por Mafalda Magalhães)

Carlos –  Filho mais velho de Zé Pedro e Margarida ( representado por João Sousa)

Joana – Filha do meio de casal ( representada por  Kiara Ferraz)

Mariana – Filha mais nova e irreverente do casal ( representada por Ísis Carvalhal)

Homem do Churrasco – Representado por Diogo Esteves

Amélia – Amiga da família de Zé Pedro e Margarida (Representada por Inês Silva)

António – Marido de Amélia, Tem uma oficina de carpintaria ( representado por João Cruz)

Empregado de Mesa – (representado por Afonso Lourenço)

Dono do Bar – (Representado por João Magalhães)

Lista de Adereços:

Grelhador feito em papelão

Mesas e cadeiras

Simulações de pães / pão duro, cortado a meio com um tecido grosso a imitar as febras (4).

Pires de caracóis (4) – pratos descartáveis, com papel amarrotado, e com caracóis colados

Copos e guardanapos e toalhas de mesa

Garrafas de coca-cola (2) e água de litro e meio(2)…

Jarros de plástico transparente, simulando sangria…

Balcão do bar

Tabuleiros para o empregado de mesa

Grelha e abano

Peixes a grelhar feitos em cartão e pintados de tinta cinzenta b

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AS MINHAS MEMÓRIAS DOS EXAMES

A Ilha do Sal

Aquele dia de início de Verão, ia ser um dia muito importante para o meu futuro. Pelo menos a ter em conta os reparos que a minha mãe fazia, enquanto me ia arranjando o cabelo e penteando a franjinha antes de sairmos de casa.

Tomei a habitual chávena de leite com Milo, a qual tinha de beber depressa senão ficava com as natas à superfície e eu não gostava de beber o leite e ficar com as natas agarradas ao lábio superior. Nunca gostara.

A viagem para Santarém foi um suplício, pois o leite, zangado por ter sido bebido à pressa, parecia ter-se encarniçado contra o meu futuro. Obrigou o meu pai a parar duas vezes e lá fui eu chamar pelo gregório, junto de uma moita mesmo à borda da estrada.

Quando cheguei a Santarém, uns quilómetros de agonia depois, o sabor do leite vomitado ainda impregnava a minha boca. Fiz a prova escrita, mas o melhor estava ainda para vir. Depois do exame escrito, havia o exame oral.

Estava no corredor com os meus pais e a minha professora, e ouvi chamar o meu nome.

– És tu agora, Zé, vai lá e porta-te bem. Boa sorte.

Entrei na sala a medo, e vi os três professores que erguiam as cabeças por cima das enormes secretárias castanhas escuras, que ainda eram mais altas por estarem encavalitadas em cima do estrado.

Sentei-me na carteira que me foi indicada, mesmo em frente das secretárias, cá em baixo, pequenino, perante toda a imponência judicial do exame oral.

Mas correu-me bem o exame. Teria corrido exemplarmente se depois de todas as respostas sobre reis e dinastias, batalhas sangrentas, rios afluentes e caminhos-de-ferro incongruentes que só existiam na minha memória, não tivessem vindo os arquipélagos estragar o arranjinho.

– Muito bem, menino José – disse em voz austera e profunda o professor. – Então agora vamos à Geografia. É capaz de me dizer um dos arquipélagos de Portugal?

Eu senti-me contente, pois essa matéria sabia-a bem. Gostava de observar os mapas lá na sala de aula, com todas aquelas formas e cores misteriosas. Além disso tinha um atlas em casa, dos meus pais, que por vezes abria para ir procurar informação sobre o continente e ilhas adjacentes…

E lá nomeei eu o arquipélago da Madeira e dos Açores, e depois os arquipélagos situados na costa africana, Cabo Verde e São Tomé e Príncipe. Mas o professor gostou mais de Cabo Verde…

-Então diga-me lá quais são as ilhas que compõem o arquipélago de Cabo Verde – perguntou ele naquela voz tumular que troava na sala.

Eu sabia que algures na sala atrás de mim, os meus colegas, os meus pais, os pais dos meus colegas e a minha professora estavam à espera que eu acabasse a prova oral, para depois irmos todos embora.

– Santiago, Maio, Boavista – comecei eu a tentar lembrar-me das ilhas todas. – Brava, S. Nicolau, São Vicente, Rasa, Santa Luzia e Santo Antão… Parece-me que são todas.

Mas o professor mostrou uma linha de dentes brancos, quando ficou com um sorriso ligeiramente irónico.

– Não estão, não, menino. Pense lá bem, que lhe falta uma.

Eu já tinha começado a ficar nervoso, pois a figura do professor agigantava-se perante a minha aparente ignorância. As minhas mãos tremiam e estavam suadas.
E eu não me conseguia lembrar de mais ilha nenhuma. Voltei a dizê-las baixinho para mim, mas não faltava nenhuma, repetia eu comigo mesmo.

– Eu já as disse todas, senhor professor, não falta nenhuma…

Na sala por trás de mim comecei a notar que havia um burburinho misturado com uns risinhos abafados, e ainda fiquei mais tenso, pois aparentemente havia de facto mais uma ilha que eu não me conseguia lembrar e isto ainda poderia dar para o torto.

– O menino José sabe fazer sopa? – perguntou inopinadamente o professor.

– Nunca viu a sua mãe a fazer a sopa? Há uma coisa que a sua mãe põe na sopa e que é muito importante – dizia ele com um tom de troça na voz. E olhou para os seus colegas de júri, que também já se tinham começado a rir.

E eu ainda fiquei mais embatucado. Estava tudo perdido, pensava eu para comigo. O que raio é que a sopa que a minha mãe fazia tinha a ver com as ilhas do arquipélago de Cabo Verde?

– Então, diga-me lá como a sua mãe faz a sopa – continuava ele com a sua voz troante.

E eu expliquei. Tentei puxar das minhas memórias, as poucas vezes em que brincando na cozinha, via a minha mãe ou a Aurora, a começar a fazer aquela sopa de feijão horrorosa que tínhamos todos de comer lá em casa. E talvez tenha sido isso que me acalmou, pois acabou por me distrair do ambiente tenso que se tinha gerado na sala.

E lá expliquei eu que ela punha água ao lume, numa panela, que punha batatas descascadas, cebola, feijão, azeite, uns dentes de cravinho (lembrava-me do sabor horroroso quando o trincava)…

-E a sua mãe não põe mais nada? Tem mesmo a certeza de que a sua mãe só põe isso na sopa?

Nessa altura a minha cabeça já tinha deixado de obedecer ao meu raciocínio e nela só ecoavam as gargalhadas e risos do público que estava na sala. Os meus colegas não iriam parar de me gozar.

– Acha mesmo que a sua mãe não põe mais nada na sopa? – Continuava ele sem perder a força. – Então não lhe põe sal?

E foi aí que eu percebi tudo. Era o sal, tão parvinho que eu fora. Então não me tinha esquecido da única ilha que tinha um nome normal?

– Ah, pois…é a ilha do Sal, senhor professor – Respondi eu numa voz tremelicante. – Desculpe mas esqueci-me dessa.

– A partir de hoje, de certeza que o menino se vai lembrar que tem de pôr sal na sopa, não é? Pode ir então. Um bom dia.

E eu levantei-me. Dirigi-me aos meus pais, já com as lagrimitas a querer saltar, teimosas, dos meus olhos. Tinha sido uma vergonha e toda a gente se rira de mim.
Mas quando a minha mãe e a professora falaram comigo, deram-me os parabéns, pois eu tinha-me portado muito bem na oral e só não me tinha lembrado da ilha do Sal. Mas eu não compreendi por que razão o professor se tinha dirigido a mim naquele tom de voz insinuante, inquisitório, como se da minha falta de resposta dependesse o equilíbrio do mundo.

Este episódio ainda se mantém na minha memória. Na altura, aquele cenário de inquisição assustou-me pelo mero facto de que eu não estava habituado àquilo, estava num liceu estranho, com salas estranhas a tresandar a cera, e com professores que mais pareciam gárgulas, tão interessados estavam em tentar manter as crianças aterrorizadas.

Hoje, sendo professor há já trinta e seis anos, conto esta história muitas vezes aos meus alunos. Falo de todo o cenário do tempo da outra senhora, em que as salas estavam ensombradas pelos retratos dos senhores presidente do conselho e presidente da república da altura, enquadrados por um crucifixo onde o cristo sacrificado consagrava o terror imposto pelos algozes que eram os professores.

Ainda me lembro que os senhores severos dos retratos estavam sempre a olhar na nossa direção qualquer que fosse o lugar onde estivéssemos. Parecia mesmo que estavam sempre a acusar-nos de alguma falha que tivéssemos feito, qualquer que ela fosse. E havia sempre muitas falhas. Às quais correspondiam frequentemente outras tantas reguadas.

Os meus alunos de agora riem-se. Os tempos mudaram. Não sabem o que são exames. Não sabem o que é um ritual de passagem. Os grandes momentos importantes da vida perderam o seu valor.

Na minha memória, este exame oral junta-se a outros exames e a outros momentos ao longo do meu liceu, em que outros professores, igualmente prepotentes exerciam a sua autoridade com mão de ferro.

No entanto chamo-lhes a atenção para o simples facto de que a vida é composta por fases diversas, e que, no final de cada uma, há um ritual de passagem, que é igualmente importante para a legitimação pública dessa passagem e para a entrada num outro período da vida.

Mas, embora haja exames novamente, o ambiente não é o mesmo, a opressão do regime não existe e a presença dos professores não é aterrorizadora. Nem os exames representam um ritual de passagem para as crianças. Pelo menos aparentemente, elas não têm a noção da sua importância, nem percebem que, em cada desses momentos, a sua personalidade, de uma forma ou outra, sai reforçada.

Em direção ao futuro.

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Irreverência infantil

O autocarro parou e o homem desceu para o passeio. Parando por um pouco, olhou para o relógio e dirigiu-se a uma pastelaria que se encontrava a uns metros de distância.

O dia estava cinzento e frio. No ar sentia-se o cheiro de castanhas assadas que um homem vendia mesmo ao pé da paragem do autocarro. «Não, castanhas não…», pensou ele enquanto apertava as abas do sobretudo para fugir ao frio que se entranhava pelo corpo todo.

Na pastelaria, sentiu o bafo quente e o cheiro do tabaco, que com aquele frio lhe parecia um perfume delicioso. Olhou em volta à procura de um lugar, mas as coisas estavam complicadas. As mesas estavam todas cheias de velhotas de cabelos brancos arranjados no cabeleireiro, e pintados de branco com laivos lilases. Mas havia ainda um lugar ao balcão do snack-bar, do outro lado. Ali também havia mesas ocupadas por mais velhotas lanchando, acompanhadas pelos netos, que tinham saído do jardim de infância havia ainda pouco tempo.

António sentou-se ao balcão e enquanto esperava que um empregado atarefado o atendesse, puxou de um cigarro e acendeu-o. Ainda tinha algum tempo, pois as aulas só começavam às 18 horas. Ainda faltavam 40 minutos. Entre ondas do fumo do seu cigarro, foi observando melhor as mesas a seu lado. As velhotas estavam mesmo animadas. Discutiam as manias e os malabarismos dos seus netinhos, como se estes fossem estrelas de cinema ou de circo.

Até que os seus olhos pousaram em cima de uma cabeleira farta e encaracolada, desgrenhada, que o fitava do outro lado da mesa. «Porque está o puto a olhar para mim? Devo ter cara de palhaço se calhar…» pensou ele enquanto os seus olhos se cruzaram com os do miúdo. Mas da cara do puto, nem um sorriso de reconhecimento. Antes uma expressão intrigante aproximava as suas sobrancelhas, como se uma dúvida súbita o assaltasse.

O empregado interrompeu as suas lucubrações. «O que deseja? Uma sandes? Com ou sem manteiga? E uma imperial? Já trago!» Quando António se voltou novamente, o puto estava agora sentado mesmo ao seu lado e observava-o com uma cara muito séria.

-Como te chamas? – perguntou ele para quebrar o gelo. – A tua avó deixa-te estar aqui?

Mas o puto nem se deu ao trabalho de responder. «Miguel, querido, vem cá! Deixa o senhor em paz a comer. Vem sentar-te e beber o resto do sumo!» gritava a senhora velhota, supostamente a avó dele.

O empregado entretanto trouxe a sandes e a imperial e António começou a comer calmamente. Pelo canto do olho percebeu que o miúdo continuava a fitá-lo e começou a sentir-se inquieto. O miúdo não o largava. Continuava a olhá-lo enquanto entre os dedos enrolava e desenrolava um guardanapo de papel que já se estava quase a desfazer.

António acabou de comer e virou-se para o miúdo para o enfrentar. Com uma expressão mais zangada e uma voz mais agreste disse-lhe:

– A tua avó não está à tua espera? Já te chamou há muito tempo. Desaparece pirralho! Vai!

A expressão do miúdo alterou-se. Ficou como que espantado, de olhos muito abertos a olhar para o António. Então, antes que ele pudesse dizer ou pensar o que mais fosse, atirou com precisão o lenço de papel que tinha nas mãos, transformado numa bola, a qual foi aterrar, qual cesto de melhor basquetebolista, dentro do copo de imperial do António. Espantado ele nem sequer esboçou um gesto. Quando reagiu, já era tarde demais. O miúdo virou-se para ele deitou-lhe a língua de fora e deitou por entre dentes: «Parvalhão!». E rodou nos calcanhares e desapareceu para junto da avó que já o chamava à porta da pastelaria despedindo-se das amigas.

António ali ficou, parvo a olhar para a porta e para o copo de imperial onde o guardanapo já se tinha desenrolado, criando quase uma flor exótica, de pétalas abertas. «De facto as coisas já não são como antigamente…» pensou ele, lembrando a cara insolente do miúdo a deitar-lhe a língua de fora «Uma boa palmada e o assunto resolvia-se!»

Olhou novamente para o relógio. Eram quase 18 horas. Tinha de se despachar se queria chegar a tempo à aula. Senão os alunos iam-se embora, nem esperavam por ele. «A conta, se faz favor!?» Pediu ele enquanto se levantava e metia a mão ao bolso para tirar o porta-moedas.

Pagou, recebeu o troco e saiu, enfrentando o vento gelado que varria a rua Morais Soares. Agora aulas até à meia-noite. Era a vida.

E apertando a gola do casaco ao pescoço, baixou a cabeça e fez-se ao movimento que enchia o passeio, num movimento contínuo de um lado para o outro. «Olh’ás castanhas assadinhas! Uma dúzia, dez tostões!» gritava a mulher das castanhas. «Como é que as pessoas conseguem gostar tanto de castanhas… ?» pensava ele com os seus botões. «E depois ficam paradas no meio do passeio e uma pessoa que vá para o meio do alcatrão, se quiser…»

Faltavam 2 minutos para as 18 quando ele entrou no externato. Já ia chegar atrasado à aula. Ainda tinha de ir buscar o livro de ponto.

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