Irreverência infantil

O autocarro parou e o homem desceu para o passeio. Parando por um pouco, olhou para o relógio e dirigiu-se a uma pastelaria que se encontrava a uns metros de distância.

O dia estava cinzento e frio. No ar sentia-se o cheiro de castanhas assadas que um homem vendia mesmo ao pé da paragem do autocarro. «Não, castanhas não…», pensou ele enquanto apertava as abas do sobretudo para fugir ao frio que se entranhava pelo corpo todo.

Na pastelaria, sentiu o bafo quente e o cheiro do tabaco, que com aquele frio lhe parecia um perfume delicioso. Olhou em volta à procura de um lugar, mas as coisas estavam complicadas. As mesas estavam todas cheias de velhotas de cabelos brancos arranjados no cabeleireiro, e pintados de branco com laivos lilases. Mas havia ainda um lugar ao balcão do snack-bar, do outro lado. Ali também havia mesas ocupadas por mais velhotas lanchando, acompanhadas pelos netos, que tinham saído do jardim de infância havia ainda pouco tempo.

António sentou-se ao balcão e enquanto esperava que um empregado atarefado o atendesse, puxou de um cigarro e acendeu-o. Ainda tinha algum tempo, pois as aulas só começavam às 18 horas. Ainda faltavam 40 minutos. Entre ondas do fumo do seu cigarro, foi observando melhor as mesas a seu lado. As velhotas estavam mesmo animadas. Discutiam as manias e os malabarismos dos seus netinhos, como se estes fossem estrelas de cinema ou de circo.

Até que os seus olhos pousaram em cima de uma cabeleira farta e encaracolada, desgrenhada, que o fitava do outro lado da mesa. «Porque está o puto a olhar para mim? Devo ter cara de palhaço se calhar…» pensou ele enquanto os seus olhos se cruzaram com os do miúdo. Mas da cara do puto, nem um sorriso de reconhecimento. Antes uma expressão intrigante aproximava as suas sobrancelhas, como se uma dúvida súbita o assaltasse.

O empregado interrompeu as suas lucubrações. «O que deseja? Uma sandes? Com ou sem manteiga? E uma imperial? Já trago!» Quando António se voltou novamente, o puto estava agora sentado mesmo ao seu lado e observava-o com uma cara muito séria.

-Como te chamas? – perguntou ele para quebrar o gelo. – A tua avó deixa-te estar aqui?

Mas o puto nem se deu ao trabalho de responder. «Miguel, querido, vem cá! Deixa o senhor em paz a comer. Vem sentar-te e beber o resto do sumo!» gritava a senhora velhota, supostamente a avó dele.

O empregado entretanto trouxe a sandes e a imperial e António começou a comer calmamente. Pelo canto do olho percebeu que o miúdo continuava a fitá-lo e começou a sentir-se inquieto. O miúdo não o largava. Continuava a olhá-lo enquanto entre os dedos enrolava e desenrolava um guardanapo de papel que já se estava quase a desfazer.

António acabou de comer e virou-se para o miúdo para o enfrentar. Com uma expressão mais zangada e uma voz mais agreste disse-lhe:

– A tua avó não está à tua espera? Já te chamou há muito tempo. Desaparece pirralho! Vai!

A expressão do miúdo alterou-se. Ficou como que espantado, de olhos muito abertos a olhar para o António. Então, antes que ele pudesse dizer ou pensar o que mais fosse, atirou com precisão o lenço de papel que tinha nas mãos, transformado numa bola, a qual foi aterrar, qual cesto de melhor basquetebolista, dentro do copo de imperial do António. Espantado ele nem sequer esboçou um gesto. Quando reagiu, já era tarde demais. O miúdo virou-se para ele deitou-lhe a língua de fora e deitou por entre dentes: «Parvalhão!». E rodou nos calcanhares e desapareceu para junto da avó que já o chamava à porta da pastelaria despedindo-se das amigas.

António ali ficou, parvo a olhar para a porta e para o copo de imperial onde o guardanapo já se tinha desenrolado, criando quase uma flor exótica, de pétalas abertas. «De facto as coisas já não são como antigamente…» pensou ele, lembrando a cara insolente do miúdo a deitar-lhe a língua de fora «Uma boa palmada e o assunto resolvia-se!»

Olhou novamente para o relógio. Eram quase 18 horas. Tinha de se despachar se queria chegar a tempo à aula. Senão os alunos iam-se embora, nem esperavam por ele. «A conta, se faz favor!?» Pediu ele enquanto se levantava e metia a mão ao bolso para tirar o porta-moedas.

Pagou, recebeu o troco e saiu, enfrentando o vento gelado que varria a rua Morais Soares. Agora aulas até à meia-noite. Era a vida.

E apertando a gola do casaco ao pescoço, baixou a cabeça e fez-se ao movimento que enchia o passeio, num movimento contínuo de um lado para o outro. «Olh’ás castanhas assadinhas! Uma dúzia, dez tostões!» gritava a mulher das castanhas. «Como é que as pessoas conseguem gostar tanto de castanhas… ?» pensava ele com os seus botões. «E depois ficam paradas no meio do passeio e uma pessoa que vá para o meio do alcatrão, se quiser…»

Faltavam 2 minutos para as 18 quando ele entrou no externato. Já ia chegar atrasado à aula. Ainda tinha de ir buscar o livro de ponto.

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Sofia, a travessa

Era uma vez uma menina chamada Sofia.

Ela era uma rapariga loira, com olhos azuis, sardas, magra, com cabelo comprido preso de lado com um lacinho. Era divertida, com bom humor e tinha prazer em ver as pessoas irritadas com as partidas que ela pregara. Por não gostar da professora, Sofia não se esforçava nada por ter boas notas, e detestava estudar. Era uma das coisas que designava de “aborrecida”.

Ela vivia com os pais e a avó, numa quinta . Lá havia todo o tipo de animais, aos quais ela adorava pregar partidas.

Na escola da aldeia, era muito conhecida por pregar partidas. A professora embirrava com a Sofia devido ao seu comportamento. Ela tinha mau génio, era quezilenta e arranjava sempre discussões nos jogos de equipa.  Todos os dias ela pregava uma partida a alguém. Por isso, ninguém tomava o partido dela.

Sofia planeava pregar uma valente partida à professora, para que ela pudesse entender que não podia ser tão arrogante e que ninguém se metia com ela.

Finalmente chegou a altura do Carnaval! Sofia estava ansiosa, pois planeava uma valente partida. No seu quarto, foi ao baú onde guardava os seus brinquedos mais terríveis. Lá dentro tinha uma aranha, uma cobra, um escorpião e muitos animais desse género.

No dia seguinte foi para a escola toda contente.  Enquanto os colegas andavam no recreio a brincar, entrou na sala sorrateiramente e pôs a aranha no livro de ponto.

Quando tocou, entraram todos para a sala, a professora por último. Dirigiu-se à secretária e abriu o livro para escrever o sumário. De repente deu um grito agudo que ecoou pelas salas: uma enorme aranha estava na página aberta.

A professora, vermelha de raiva, olhou imediatamente para a Sofia, que, no seu lugar, ostentava um enorme sorriso de orelha a orelha.

– Sofia!  Hoje ficas sem recreio. E vais ter de escrever quinhentas vezes a seguinte frase: ”Não devo pregar partidas às outras pessoas.”

A partir desse dia, Sofia aprendeu que não devia pregar partidas às outras pessoas, pois assim iria sempre assumir as consequências e nunca conseguiria que os seus colegas e professores a respeitassem.

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2.º Prémio do I Concurso Literário do Colégio de Alfragide

O livro da magia

 

por Jaquinzinho das Neves

 

Era um sábado frio e enublado, tudo para ser desagradável. Miguel, um menino de onze anos, alto, magro e louro passeava pela feira popular de Lisboa. Entre muitas barracas, umas mais animadas que outras, ele procurava apenas uma, mas que se localizava nos confins da feira. Ainda tinha muito para percorrer.

            Depois de muito caminhar, encontrou a barraca que tanto desejava encontrar. Tinha um grande letreiro de madeira onde se lia « Os Livros do Eduardo ». Era uma barraca com um aspeto organizado e misterioso, pois Eduardo vendia livros com feitiços. Havia vários livros, todos com capa de couro, empoeirados e com aquele cheiro antigo que Miguel tanto apreciava. Nas suas páginas macias,  liam-se feitiços magníficos que poucos conheciam. Havia livros para todos os gostos. Como ficar mais bonito, como conseguir voar, ou até mesmo como passar de um momento para o outro, de motivo de chacota para criança mais famosa da escola.

            Enquanto passeava os olhos pela banca, encontrou o livro que tanto procurara. Chamava-se « O Mundo da Magia ». Era um livro com feitiços que relatavam como se poderia viajar  pelo tempo ou até mesmo pelo grande, misterioso e perigoso Universo. Era o livro excelente para Miguel. Tudo o que há  sobre dinossauros, ele também conhece. Agora o que ele queria mesmo, era viajar no tempo até à época dos dinossauros para os conhecer, não por imagens, mas sim pelo contacto direto, mas sem exagero , pois pode-se tornar perigoso! Miguel também desejava viajar pelo Universo, graças a uma trilogia que relata a vida de um menino que tem uns pais ecológicos, mas que tem uns vizinhos que possuem o computador mais inteligente do mundo, o Cosmos. Como eles são amigos, têm todos grandes aventuras pelo Universo. Como esses três livros relatam grandes peripécias no Universo ele ficou apaixonado e gostaria de ter as mesmas experiências.

            Miguel estava bastante contente por ter conseguido encontrar aquele livro por que tanto procurara. Quando ia perguntar quanto custava o livro, Miguel achou Eduardo a pior pessoa existente à face da Terra. Até o achou pior que o rufião lá da escola, o Vítor, que lhe batia por tudo e por nada. Eduardo informou-o que o livro já estava reservado para outro comprador. Miguel, como queria tanto aquele livro, decidiu que iria ficar ali à espera daquela pessoa intrometida para lhe tentar comprar o livro pelo preço que desejasse. Como esse comprador nunca mais chegava, dirigiu-se, cabisbaixo, para a paragem de autocarro. Já estava prestes a chegar, quando o autocarro arrancou, deixando-o ali sozinho, a maldizer a sua pouca sorte: comentou para si mesmo que aquele era o seu dia de azar.  Teria de percorrer um longo caminho até casa. Não seria a primeira vez que iria fazer esse percurso, mas naquele sábado que até ameaçava chuva, não lhe apetecia nada. Pior que aquele dia era impossível! Quando chegou a casa, estava muito triste. Foi tomar um banho bem quentinho e a seguir foi ver programa do National Geographic, que naquele dia passava as descobertas mais recentes do Universo. Assim pelo menos, não pensava tanto no sucedido na feira.

            Mal o programa acabou Miguel foi para o seu quarto para jogar computador, quando reparou num embrulho que estava em cima da sua secretária. Por cima, havia um bilhete a dizer que era da sua mãe. Abriu-o e viu que era aquele livro que tinha encontrado na feira. Nesse momento, a sua opinião sobre aquele comprador que ele não conhecia, passou de pior pessoa que ele já tinha ouvido falar, para a melhor pessoa que ele tinha conhecido. Fartou-se de agradecer e gritou bem alto, de alegria. A mãe que ouviu a barulheira, depressa entrou no quarto do Miguel. Ela, que conhecia o sonho do seu filho desde sempre, disse para começar a experimentar os feitiços. Sem hesitar, o Miguel meteu mãos à obra. O primeiro que  experimentou, fazia com que ele viajasse para a época dos dinossauros. Ele seguiu os passos um a um, mas sem resultado. Que desilusão!

 Mas cuidado! Do livro, começou a sair um papel amarelado, onde letras pequeninas e encavalitadas informavam que aquele livro era falso, não passava de uma imitação do original. Os verdadeiros feitiços estavam num livro guardado numa biblioteca escondida no castelo de Molinstart. Também tinha um « mapa do tesouro » com a localização do livro tão desejado.

            Miguel, e a sua mãe que se chama Ana, começaram a fazer as malas. Iam partir à procura do tesouro! Agora é que a verdadeira aventura arrancava.

            Foram até ao aeroporto de Lisboa e apanharam o avião para o Canadá, que, de acordo com o mapa, era onde se localizava o tal castelo. A viagem parecia que não tinha fim. Foram hooooras! Miguel ainda tentou adormecer, mas a excitação era tanta, que nem era capaz de ficar quieto na sua cadeira. Ao seu lado, a mãe sempre foi dormitando. Claro, a aventura não era dela!

            Quando lá chegaram, foram logo alugar um quarto num hotel não muito caro, na cidade de Toronto, onde se localizava o castelo. Apesar do entusiasmo, decidiram descansar para se prepararem para o dia seguinte, que parecia prometer.

            Na manhã seguinte, depois de tomarem o pequeno almoço, foram alugar um carro. Partiram logo para o castelo de Molinstart. A viagem não durou muito, pois localizava-se relativamente perto da cidade de Toronto. A viagem foi pacifica, mas quando estavam a chegar ao castelo, um grito estridente ecoou. Miguel estava pálido. A mãe, travou bruscamente. Miguel murmurou umas palavras sem nexo, repetindo insistentemente: fan-tas-ma, fan-tas-ma, enquanto apontava para fora do carro. Ana,recuperando do susto deu uma gargalhada e disse que isso não era possível. Retomaram a viagem, e quando chegaram ao castelo, viram que estava abandonado. Miguel estava mesmo com muito medo, mas como queria tanto ver o verdadeiro livro, « foi em frente ». Por muito incrível que pareça, o mapa que tinha a localização do castelo de Molinstart, começou a mudar de imagem e apareceu a planta do castelo. Mostrava precisamente o local do livro.

             Quando passaram os portões do castelo, viram um enorme jardim que se estendia até às grandes portas de ferro que guardavam o grande castelo, que parecia abandonado e assombrado. Quando entraram no castelo, ambos sentiram um calafrio. Neste momento, a Ana achou aceitável a ideia de fantasmas. Ouviram o ranger do soalho do andar de cima e foram para lá a correr, para ver se encontravam alguém que lhes pudesse indicar o caminho para a biblioteca do castelo. Quando chegaram lá acima, ouviram uma porta a ranger. Esse barulho vinha de uma divisão, não muito distante. Filho e mãe não precisaram de trocar palavras. Fora ambos a correr para esse quarto. Ana, que foi a primeira a chega. Pareceu-lhe ver uma estante a mexer-se. Comentou com Miguel que devia haver ali uma passagem secreta. Não pensaram duas vezes e procuraram todo o tipo de mecanismos que pudessem desvendar o segredo daquele ranger, que tanto lhes despertava a curiosidade. Acabaram por não encontrar nada, então, Miguel teve a ideia de tentarem empurrar a estante, pois isso talvez ativasse o mecanismo automaticamente. Bem o pensaram, melhor o fizeram. Empurraram a estante em todos os sentidos e com todas as suas forças. Não demorou muito até a estante começar a deslizar, deixando uma entrada visível.

            Através daquela passagem secreta, observaram uma grande biblioteca que parecia ter muitos livros portadores de feitiços. De um momento para o outro, viram um vulto mexer-se. Foram ter com ele e perguntaram-lhe quem era. Ele disse que era o guardião daquele castelo aparentemente abandonado. Então, aquele misterioso vulto perguntou-lhes quem eram, o que queriam e porque foram até ali. Contaram a história de uma ponta à outra com o máximo de pormenores, para ver se os deixavam sair daquele sítio com o livro que Miguel tanto desejava possuir. Miguel transmitiu o seu desejo àquela sombra misteriosa.

             De repente, sentiram-se inseguros. Uma respiração ofegante estava cada vez mais perto. O  vulto começou a ganhar contornos cada vez mais definidos. Viram um braço a sair de uma  capa e na mão, estava um objeto. Cada vez mais, aquela respiração ofegante era mais audível. Um movimento brusco, fez Miguel fechar os olhos de terror. Quando ganhou coragem para os abrir, viu que debaixo daquela capa se escondia um homem idoso, que lhe estendia o livro que ele tanto procurara. O senhor afirmou que o deixava levar com uma condição. Que Miguel nunca revelasse  o segredo daquele castelo. Miguel jurou cumprir a promessa. Foi aí que ficou esclarecido o mistério do  «fantasma » que tanto assustara Miguel. O senhor criou-o para afastar as pessoas do seu castelo.

            Miguel foi-se embora, feliz e contente da vida, com a mãe sem precisar do carro. Como tinham sido as primeiras pessoas a descobrir aquela biblioteca, o dono de Molinstart ofereceu-lhes outro livro, que lhes permitia viajar dum lado para o outro com a maior rapidez possível. Chegaram, por isso, a Lisboa enquanto o Diabo esfrega o olho.

            Foi graças à sua coragem e esforço, que Miguel, se tornou o menino mais famoso do mundo, pois tinha o livro que muitos queriam ter, mas que só ele possuía. Também ficou rico por colaborar bastante com agências espaciais como a NASA ou a ESA, ou por ajudar nas pesquisas dos paleontólogos com os Dinossauros.

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E viva o eucalipto!

No outro dia, ao vaguear entre as vulgares notícias online dos jornais diários, dei com um artigo que me deixou surpreendido, pois não estava à espera:

http://jornal.publico.pt/noticia/16-07-2012/governo-quer-acabar-com-barreiras-ao-eucalipto-24906854.htm

Talvez para o normal lisboeta este assunto não levante quaisquer dúvidas pois, pelo menos para já, não põe em causa o seu emprego, nem lhe dá nenhum benefício visto que não pode plantar eucaliptos na varanda.

No entanto, para uma pessoa nascida na província, no “campo” como se costumava dizer antigamente, esta notícia faz-me temer o pior. Eu ainda sou do tempo em que se valorizavam outras árvores, que eram aliás bem mais importantes na nossa paisagem.

Qualquer pessoa de média inteligência percebe que o facto de o governo querer alterar a legislação sobre a plantação de eucaliptos em qualquer área mesmo em área ardida só vai ter dois tipos de consequência: o primeiro é mais material para as portuceis, logo um valor mais baixo no custo da matéria prima; o segundo é uma maior frequência de incêndios logo que as temperaturas subam…É que, queimando as árvores existentes, já podem plantar as árvores que lhes darão mais dinheiro mais rapidamente.

E se forem verificar bem, os fogos dão mais em áreas de pinheiro ou outras árvores…por que será? http://expresso.sapo.pt/eucaliptar-portugal=f740286

Todos sabemos que as crianças fazem asneiras porque isso lhes traz benefícios imediatos. No entanto todos assumimos como necessário que haja educadores ( pais e professores) que lhes possam fazer compreender que nem sempre o mais desejado é o mais correto. E que por vezes as consequências (dos desejos) podem ser muito graves… Só irão dar por isso muitos anos depois…

 

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Temos o país que merecemos.

Outro assunto que tem azucrinado os nossos sentidos, é o caso Relvas. E na minha opinião apenas representa a pobreza de espírito do povo deste país.

Em primeiro lugar quero dizer que eu trabalho num estabelecimento de ensino do Grupo Ensinus, que, por via disso, pertence ao grupo lusófona. No entanto, o facto de trabalhar numa escola do grupo lusófono não me retira a capacidade de ter uma cabeça para pensar e de ter opiniões sobre a forma como a opinião pública é manipulada.

Alguém considera que, por pertencer a um grupo onde houve um caso que pode conter facetas criticáveis e que pode representar alguma ligeireza com que neste país se olha para a legislação e para a forma como ela é aplicada, se ponha em causa o bom nome de uma instituição, aligeirando o grau de exigência que deve reger todos os procedimentos avaliativos das instituições de ensino?

Alguém no seu perfeito juízo pode considerar que, por via deste caso, se ponham em causa todas as avaliações realizadas no âmbito das escolas que pertencem ao grupo lusófona?

E o que para mim é mais significativo é que, este assunto tenha tomado a relevância que tomou apenas devido ao nome da pessoa envolvida. Se fosse outra pessoa de menor gabarito, nem pagando aos jornais se conseguia ver a notícia publicada.

Mas este caso é representativo da nossa maneira de ser:

  1. A necessidade que um político conhecido (e com provas dadas) tem de conseguir ter um diploma que lhe confira autoridade( ser tratado por Dr.);
  2. A necessidade que tem de recorrer a meios não tão ortodoxos, visto que, sendo político de carreira, não tem tempo de frequentar aulas noturnas;
  3. A forma como o facto de ser político lhe permite determinados benefícios que não seriam concedidos a qualquer comum mortal;
  4. A forma ligeira como toma esta situação, recusando-se a assumir qualquer leviandade relativa aos procedimentos. Em Inglaterra as responsabilidades seriam assumidas de forma diferente;
  5. A forma como o “Zé Povinho” olha para a questão e a resume de forma ligeira a “eles é que têm os livros. Eles é que sabem como se fazem”. O que poderá querer dizer que nós somos uns santinhos e nunca fazemos nada de errado. No entanto, toda a minha gente foge (quando pode) a um pagamento sem fatura (será assim tão rara a pergunta: Precisa de fatura?) ou a uma “facadinha” nos princípios do civismo que impliquem pagamento de impostos.
  6. A forma como uma universidade privada é imediatamente queimada na praça pública apenas pelo facto de ser privada, e portanto, capaz de todas as malandrices apenas para atribuir diplomas aos seus alunos;
  7. E por último a forma como se assume que os estabelecimentos de ensino são terrivelmente caros, quando está provado que o dinheiro que um aluno custa ao estado é superior aos custos que um aluno custa num estabelecimento de ensino privado, se compararmos o mesmo tipo de serviços. A grande diferença é que as escolas oficiais ( básicas, secundárias e superiores politécnicas ou universitárias) são pagas por todos os portugueses que pagam impostos e as escolas particulares são pagas apenas por aqueles que optam pela qualidade do seu ensino.
  8. Como em tudo, há  diferentes graus de exigência, mas para isso basta haver dois professores diferentes. Muitos dos que gozam com o assunto estariam caladinhos se lhes tivesse tocado a eles.

Esta é a minha leitura. E fico à espera que alguém me apresente algum argumento que me faça mudar a minha opinião.

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Em casa onde não há pão…

Um dos assuntos mais falados na imprensa nestes últimos meses tem sido o tema da educação e das medidas tomadas pelo Ministério da Educação e Ciência inseridos num programa de reformulação de programas, revisão de processos e tomadas de decisão financeiras que têm implicações no status quo das últimas três décadas.
Pode concordar-se ou discordar-se. Mas todos temos a noção de que a área da educação e da saúde são as que maiores custos representam para os cofres do estado. E ao dizer isto estamos logo a incorrer num primeiro erro: o “estado” não tem cofres. Aliás o “estado” nem sequer tem dinheiro. O dinheiro é nosso, de todos os que contribuímos com a nossa parte para o custo global do país.
E é aqui que reside o busílis. É aqui que as opiniões divergem: para um lado vão as daqueles que têm uma agenda ( como se diz agora) filtrada por objetivos ideológicos partidários; para o outro vão aqueles cujos objetivos ideológicos não estão consoantes com a mesma agremiação política.
E sobram apenas aqueles que de facto tentam ser isentos e apenas pensam pela sua cabeça. Mas esses têm dificuldade em falar, pois têm sempre tendência para serem apelidados de adeptos da ideologia contrária. Na realidade estão apenas a dar a sua opinião independente de ideologias formatadas. Estão apenas a opor-se a uma formatação acrítica.
Ah, e estava a esquecer-me de que há “os outros”, infelizmente a maior parte, que pertencem àquele “clube acéfalo”, que dizem mal de tudo e de todos, mas que depois, em dia de votação, vão para a praia, pois não têm pachorra de aturar a política e os políticos. Enfim, apenas merecemos ( todos) o país que temos. E só nos podemos culpar a nós próprios enquanto povo.
E era aqui que eu queria chegar: há um blog muito conhecido pelas suas posições políticas sobre a educação desde 2010, mas que me tem vindo a desiludir devido ao facto de não conseguir deitar fora os “filtros” que usou durante vários meses contra o governo anterior. Pensava eu na altura que a sua “agenda” não era política. No entanto, ao visitarmos o blog hoje em dia, parece-nos uma página satélite do ministério da educação, tal é a semelhança de ideias, posições, opiniões, pontos de vista e decisões desejadas.
E para o comprovar queria apenas chamar a atenção para os três postes seguintes, publicados pela mesma pessoa apenas com dois anos de diferença e cujo contexto apenas se diferencia por terem sido publicados com diferentes governos do país: o de Sócrates e o de Passos Coelho.
http://www.profblog.org/2010/05/criacao-de-mega-agrupamentos-de-escolas.html
http://www.profblog.org/2012/06/maneira-mais-facil-de-deminuir.html
http://www.profblog.org/2012/06/uma-verdade-duas-teses-por-provar.html

Após a leitura destes postes, cada pessoa deve assumir as suas conclusões. E não quero com isto dizer que defendo as medidas do ministério. Apenas considero que as há boas e as há más.
Mas também considero que, quando não há dinheiro e há aperto orçamental, há que tomar decisões e arrumar a casa. Quem tem essa responsabilidade é sempre mal visto por aqueles que não estão preocupados com a origem do dinheiro. Apenas querem ver o seu problema resolvido. E, nesta perspetiva, eu tenho um “defeito”: sou responsável pedagógico de uma escola privada. Aqui o dinheiro que se gasta é pago pelos utentes. E sem dinheiro não há luxos. E sem dinheiro, os funcionários (todos) poderão ficar sem os seus empregos. Porque nós não trabalhamos com “rede”.
O problema é que, em termos de país, a resolução do problema de alguns tem implicações no agravamento do problema de todos. Porque, na realidade, os custos da educação pública também são pagos pelos professores e famílias do particular.
Importaria assim que quem tão duramente critica as decisões ministeriais dê a sua opinião sobre a melhor forma de resolver os problemas financeiros do país, sem olhas apenas para o seu quintal.
E, por último, importaria também que não fossem “vira-casacas” e tivessem uma maior consistência na opinião.

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Regresso Após um Interregno Algo Prolongado

Foi com algum espanto que verifiquei que o último post que coloquei neste blog foi escrito em meados de Agosto do ano passado.
De facto, quando criei o blogue, fi-lo com a intenção precisa de lá colocar a minha opinião sobre muitos assuntos diretamente ou indiretamente relacionados com educação, os seus problemas, as alterações que têm vindo a ser postas em prática nos últimos anos pelos últimos governos.
Na realidade pretendo apenas dar uma visão ( a minha visão ) sobre o que vai acontecendo, embora não tenha uma perspetiva filtrada apenas por motivos ideológicos ou outros. Tenho para mim que a educação é um assunto demasiado sério para ser um joguete nas mãos de pessoas manipuladas ideologicamente. E poderia dar muitos exemplos.
No entanto, tomei a decisão de tornar os assuntos sobre os quais escrevo muito mais abrangentes, visto que a sociedade civil tem de ter uma participação muito mais ativa na discussão de perspetivas sobre a realidade desejada. Se não o fizermos corremos o risco de, por um lado, estarmos a ser levados e manipulados por interesses obscuros e, por outro lado, perdermos a razão quando criticamos as decisões tomadas, apenas porque não nos lembrámos mais cedo, ou porque estávamos na nossa área de conforto e não quisemos sair dela.
Venho por isso ressuscitar o meu blog. Espero que os textos que eu aqui publique possam servir para o esclarecimento de perspetivas e possam levar as pessoas a assumir uma posição crítica perante medidas graves que são publicitadas “de pantufas” para utilizar a expressão mais suave.

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