Memórias de um grande amigo

De facto, ao longo da nossa vida há pessoas que nos deixam marcas indeléveis, que ficarão sempre presentes na nossa memória. Quando me propus fazer uma composição, como exemplo, para que os alunos que se estão a preparar para os exames de segundo ciclo percebessem quais os cuidados a ter,  logo me veio à memória a figura incontornável de padre Branco Duarte.

A forma como eu o conheci, foi um pouco dramática. Quando ele veio ter comigo a dizer-me que o táxi estava à espera e que ele me acompanhava, olhei para ele surpreendido, pois nunca o tinha visto no colégio. Ou pelo menos nunca tinha reparado nele.

A viagem foi dolorosa, pois tinha-me sido dito que eu tinha de vir ver a minha mãe que estava muito doente. A meio do caminho, em Coimbra, junto ao Mondego, convidou-me a passear junto ao pontão do rio, ali mesmo perto da baixa. E foi aí que ele me disse que eu tinha de ter muita força, pois a minha mãe tinha falecido e ele sabia quão importante ela tinha sido para mim.

Lembro-me de que na altura não chorei. A tensão nervosa e a situação anormal de eu estar a quilómetros do colégio a conversar sobre a minha mãe com uma pessoa que eu nunca tinha visto, fizeram com que as minhas lágrimas secassem.

O P.e Branco Duarte, de quem eu viria a tornar-me grande amigo nos anos seguintes, tinha características únicas: era alto, atlético, não costumava vestir batina ( o que para mim era estranho, pois, no colégio, os padres vestiam todos batina ), e a única coisa que fazia as pessoas olhar era o colarinho de padre, que, por ser diferente, dá muito nas vistas.

Usava óculos de uma graduação impressionante, quase pareciam fundos de garrafa, daquelas garrafas de espumante, pois faziam vários círculos brilhantes e os olhinhos ficavam, pequeninos, lá no fundo. O cabelo era escorrido, tendo uma franja que lhe caía para os olhos e que ele retirava com um gesto brusco de cabeça, como se estivesse a cabecear uma bola num jogo de futebol.

Depois desse dia, só o voltei a ver no início do ano seguinte, no colégio, quando entrei na primeira aula de Filosofia. Nem sei bem o aspeto com que devo ter ficado quando olhei para ele, pois devo ter feito figura de parvinho: especado, sem me mexer, boquiaberto a olhar para ele que retribuía o olhar, sorrindo…

Nos meses que se seguiram, foi o meu grande companheiro dos meus dias de fim de semana. Passávamos as tardes de sábado a jogar ping-pong na sala de jogos do sexto ano. Eram momentos deliciosos, pois jogávamos e discutíamos filosofia e aspectos gerais da vida, das relações humanas, de política ( embora fosse proibido falar de política, nós fazíamo-lo com um grande à-vontade, até porque nessas tardes eram poucos os colegas que se encontravam no salão de jogos…).

Tinha uma predisposição natural para a boa disposição, e isso fazia dele um excelente amigo, pois qualquer que fosse o problema, podíamos recorrer a ele com toda a facilidade e ele encontrava sempre a solução certa e equilibrada. Pelo menos comigo foi assim.

No final do meu sétimo ano do liceu, saí do colégio e vim para Lisboa. Os contactos com as Caldinhas esfumaram-se. No entanto, passados dois ou três anos reencontrei um antigo colega do INA que me contou então sobre o Branco Duarte.

Contou-me que ele já não era padre, que tinha conhecido uma rapariga por quem se tinha apaixonado, de tal forma, que tinha casado e até já tinha filhos. Em certa medida agradeci aos céus, pois uma pessoa tão interessante como ele, era um desperdício como padre.

Ainda hoje, quando me sinto pressionado pelos problemas da vida, recordo a calma com que o P.e Branco Duarte enfrentava os problemas como se eles na realidade não valessem nada. E, sim, continuo na minha mente a chamar-lhe «padre« pois, para mim, ele será sempre o Padre Branco Duarte.

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