Irreverência infantil

O autocarro parou e o homem desceu para o passeio. Parando por um pouco, olhou para o relógio e dirigiu-se a uma pastelaria que se encontrava a uns metros de distância.

O dia estava cinzento e frio. No ar sentia-se o cheiro de castanhas assadas que um homem vendia mesmo ao pé da paragem do autocarro. «Não, castanhas não…», pensou ele enquanto apertava as abas do sobretudo para fugir ao frio que se entranhava pelo corpo todo.

Na pastelaria, sentiu o bafo quente e o cheiro do tabaco, que com aquele frio lhe parecia um perfume delicioso. Olhou em volta à procura de um lugar, mas as coisas estavam complicadas. As mesas estavam todas cheias de velhotas de cabelos brancos arranjados no cabeleireiro, e pintados de branco com laivos lilases. Mas havia ainda um lugar ao balcão do snack-bar, do outro lado. Ali também havia mesas ocupadas por mais velhotas lanchando, acompanhadas pelos netos, que tinham saído do jardim de infância havia ainda pouco tempo.

António sentou-se ao balcão e enquanto esperava que um empregado atarefado o atendesse, puxou de um cigarro e acendeu-o. Ainda tinha algum tempo, pois as aulas só começavam às 18 horas. Ainda faltavam 40 minutos. Entre ondas do fumo do seu cigarro, foi observando melhor as mesas a seu lado. As velhotas estavam mesmo animadas. Discutiam as manias e os malabarismos dos seus netinhos, como se estes fossem estrelas de cinema ou de circo.

Até que os seus olhos pousaram em cima de uma cabeleira farta e encaracolada, desgrenhada, que o fitava do outro lado da mesa. «Porque está o puto a olhar para mim? Devo ter cara de palhaço se calhar…» pensou ele enquanto os seus olhos se cruzaram com os do miúdo. Mas da cara do puto, nem um sorriso de reconhecimento. Antes uma expressão intrigante aproximava as suas sobrancelhas, como se uma dúvida súbita o assaltasse.

O empregado interrompeu as suas lucubrações. «O que deseja? Uma sandes? Com ou sem manteiga? E uma imperial? Já trago!» Quando António se voltou novamente, o puto estava agora sentado mesmo ao seu lado e observava-o com uma cara muito séria.

-Como te chamas? – perguntou ele para quebrar o gelo. – A tua avó deixa-te estar aqui?

Mas o puto nem se deu ao trabalho de responder. «Miguel, querido, vem cá! Deixa o senhor em paz a comer. Vem sentar-te e beber o resto do sumo!» gritava a senhora velhota, supostamente a avó dele.

O empregado entretanto trouxe a sandes e a imperial e António começou a comer calmamente. Pelo canto do olho percebeu que o miúdo continuava a fitá-lo e começou a sentir-se inquieto. O miúdo não o largava. Continuava a olhá-lo enquanto entre os dedos enrolava e desenrolava um guardanapo de papel que já se estava quase a desfazer.

António acabou de comer e virou-se para o miúdo para o enfrentar. Com uma expressão mais zangada e uma voz mais agreste disse-lhe:

– A tua avó não está à tua espera? Já te chamou há muito tempo. Desaparece pirralho! Vai!

A expressão do miúdo alterou-se. Ficou como que espantado, de olhos muito abertos a olhar para o António. Então, antes que ele pudesse dizer ou pensar o que mais fosse, atirou com precisão o lenço de papel que tinha nas mãos, transformado numa bola, a qual foi aterrar, qual cesto de melhor basquetebolista, dentro do copo de imperial do António. Espantado ele nem sequer esboçou um gesto. Quando reagiu, já era tarde demais. O miúdo virou-se para ele deitou-lhe a língua de fora e deitou por entre dentes: «Parvalhão!». E rodou nos calcanhares e desapareceu para junto da avó que já o chamava à porta da pastelaria despedindo-se das amigas.

António ali ficou, parvo a olhar para a porta e para o copo de imperial onde o guardanapo já se tinha desenrolado, criando quase uma flor exótica, de pétalas abertas. «De facto as coisas já não são como antigamente…» pensou ele, lembrando a cara insolente do miúdo a deitar-lhe a língua de fora «Uma boa palmada e o assunto resolvia-se!»

Olhou novamente para o relógio. Eram quase 18 horas. Tinha de se despachar se queria chegar a tempo à aula. Senão os alunos iam-se embora, nem esperavam por ele. «A conta, se faz favor!?» Pediu ele enquanto se levantava e metia a mão ao bolso para tirar o porta-moedas.

Pagou, recebeu o troco e saiu, enfrentando o vento gelado que varria a rua Morais Soares. Agora aulas até à meia-noite. Era a vida.

E apertando a gola do casaco ao pescoço, baixou a cabeça e fez-se ao movimento que enchia o passeio, num movimento contínuo de um lado para o outro. «Olh’ás castanhas assadinhas! Uma dúzia, dez tostões!» gritava a mulher das castanhas. «Como é que as pessoas conseguem gostar tanto de castanhas… ?» pensava ele com os seus botões. «E depois ficam paradas no meio do passeio e uma pessoa que vá para o meio do alcatrão, se quiser…»

Faltavam 2 minutos para as 18 quando ele entrou no externato. Já ia chegar atrasado à aula. Ainda tinha de ir buscar o livro de ponto.

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