«ENFRENTAR A CRISE: VIVA O EMPREENDEDORISMO»

FESTA FINAL 2012 / 2013

PEÇA DE TEATRO ESCRITA PELOS ALUNOS DO 5.º E 6.º ANOS

«ENFRENTAR A CRISE: VIVA O EMPREENDEDORISMO»

 

15 DE JUNHO DE 2013

 PREFÁCIO

A razão de ser desta peça foi a participação das turmas do 5.º e 6.º anos na Festa Final.

Quando inquiridos sobre o que fazer para participação na Festa Final, eles recusaram fazer «qualquer coisinha» como cantar uma canção ou coisa do género. Apresentaram então a hipótese de criar uma peça de teatro em que todos participassem.

O segundo passo foi decidir de que forma nós trataríamos o tema global de escola que este ano era «As Profissões». Foi então que surgiu a ideia de tratar da situação económica atual, com a crise social e financeira, puxando o centro da questão para a valorização do conhecimento e a oposição aparente entre cursos superiores, conhecimentos, experiência e empreendedorismo.

Desta forma, como a peça era representada a 15 de junho, pensou-se em colocar duas famílias e respetivos filhos em confronto relativamente a estudos, cursos, notas, exames e o conceito de empreendedorismo. Colocaram-se em oposição a opinião dos pais sobre a importância dos cursos e a posição dos filhos em quererem levar avante uma outra ideia, a sua, recusando a dos pais.

No diálogo surgem outras posições de pessoas do povo, como o homem do grelhador ou a da amiga de Margarida e o marido, que ficou desempregada e arranjou outra tarefa na área das artes gráficas.

A peça começou a ser desenvolvida por volta de 12 de maio a cerca de um mês da representação na Festa Final. Os diálogos foram construídos em aula, com os alunos divididos em grupos, e levou cerca de duas semanas; Depois passou-se à gravação das vozes, no sentido de criar uma trilha sonora com os diálogos, fazendo os alunos o «play-back» em palco. Isto foi terminado já em fins de maio, princípios de junho;

Os alunos ensaiaram apenas 5 vezes: uma vez no dia 7 de junho, e depois no dia 12 de tarde ( dia 13 de junho estivemos fechados no feriado de Santo António) e ensaiamos 3 vezes na sexta feira dia 14 de junho, sendo a última a seguir ao almoço.

A encenação foi desenvolvida por mim, enquanto professor de Língua Portuguesa, com as ideias dos alunos, na perspetiva de manter um equilíbrio e economia de materiais e gastos .

Os alunos estão de parabéns. A ideia foi bem concebida e posta em prática de forma exemplar.

Alfragide, 16 de junho de 2013

José Crispim Romão

Professor de Língua Portuguesa, 5.º e 6.º anos, 2012/2013

A PEÇA

A peça trata da crise social, económica e financeira que o nosso país atravessa. Num bairro antigo de Lisboa, duas famílias encontram-se num arraial dos santos populares, na noite de Santo António. Uma das famílias é mais abastada, sendo o José um empresário de uma importante marca de louças sanitárias. A outra família, é uma família de classe média, sendo o Zé Pedro funcionário de confiança do José, dono da fábrica.

Ambas as famílias têm três filhos. A família do José é composta por maria Teresa, a mãe do José que é muito assertiva e que gosta de dar a sua opinião. A Melissa, muito preocupada com os filhos, principalmente com o mais velho, devido ao facto de achar que ele não encontra uma decisão relativamente ao futuro.

Os filhos desta família são o Miguel, o mais velho, rapaz pouco estudioso e dado a boémias, saídas nocturnas e pouco esforço na faculdade. A Sara, a filha do meio, rapariga certinha, aluna do secundário, que gostaria de vir a ser gestora para seguir as pisadas do pai e tomar conta da fábrica mais tarde e o Luisinho, o mais novo, que não gosta nada de escola, anda no 2.º ciclo e não estuda nada, havendo mesmo problemas na escola onde anda a ser acompanhado pela psicóloga.

A família do Zé Pedro, é composta pela avó Ermelinda, mulher do povo, já com alguma idade, a Margarida, mulher do Zé Pedro e que ficou recentemente desempregada.

O casal tem três filhos. O Carlos, o mais velho, aluno que está a terminar a faculdade de medicina e que já tem emprego oferecido num hospital. A Joana, a filha do meio que gosta secretamente do Miguel, mas que só pensa em rapazes, discotecas, saídas à noite, etc… Por último a Mariana, miúda irreverente e pouco estudiosa, que tem uma relacionamento um pouco tempestuoso com a irmã, pois está sempre a gozar com ela por gostar do Miguel, o filho mais velho do patrão do pai.

As duas famílias encontram-se num arraial popular na noite de Santo António e conversam sobre a crise, o desemprego, os cursos dos filhos, os problemas da escola e a mentalidade dos filhos que não se importam com a situação e não se preocupam com o futuro. No entanto, veremos que não é bem assim: apenas não concordam totalmente com a visão dos pais relativamente a cursos superiores e têm outras ideias para fazer a sua vida.

Nota: os números entre parênteses a seguir ao nome de cada personagem representam o número de falas de cada uma, necessário para o controlo de gravação da pista sonora.

ATO 1

Cena I:

 (Pai e mãe da família do empresário José entram no recinto do arraial dos santos populares, juntamente com os avós. Discutem os atrasos dos filhos.

JOSÉ (1) – Ah, estes meus filhos são mesmo irresponsáveis! É para vir a família toda e eles chegam sempre atrasados!

MARIA TERESA (1) – Ó José, chega de refilar! Os teus filhos já têm maturidade suficiente para virem sozinhos à hora que quiserem.  Se calhar, quando tinhas a idade deles, fazias a mesma coisa…

JOSÉ (2) – Ai, não fazia, não… Se fizesse não me ficava a rir.

MELISSA (1) – José, não refiles! Nestas festas há muita gente e se te ouvem falar dos teus filhos dessa maneira, ficamos com má reputação.

 JOSÉ (3) – Bem visto, querida, o meu negócio ainda fica com má fama e as pessoas deixam de comprar a minha grande invenção: sanitas anti entupimento.

(Nisto a família do Zé Pedro aparece no recinto.)

JOSÉ (4) – Pois, mas voltando ao assunto. Vocês estão sempre a desculpá-los. Se não lhes aparassem os golpes, eles não o faziam. (Após uma pausa ) Olha, está ali o ZÉ PEDRO  com a família… Podíamos convidá-los a sentarem-se connosco na mesa. Aliás tenho de discutir uns assuntos com ele, pois não tivemos tempo de nos reunir…

MELISSA (2) – És sempre o mesmo! Então agora vens para o arraial discutir os negócios da empresa?

JOSÉ (5) – Se não fossem os negócios da empresa, não andavas sempre a comprar vestidos…

MARIA TERESA (2) – De facto, tu não tens emenda. Devia-te ter dado umas palmadas na altura certa…

Cena II:

(Aproximam-se o ZÉ PEDRO e a sua família)

ZÉ PEDRO (1) – Boa noite, Sr. Doutor. Está tudo bem? Boa noite D.ª MELISSA. Como está, D.ª MARIA TERESA.

MELISSA (3) e MARIA TERESA (3) – Como estão? Chegaram cedo.

MARGARIDA (1) – Viemos, sim. Tínhamos de arranjar um lugar sentados. Ai,  a minha mãe já não aguenta as pernas se estiver muito tempo de pé. A idade não perdoa…

MARIA ERMELINDA (1) – É verdade! Já no ano passado, depois do arraial, andei uma semana que não me conseguia mexer.

MELISSA (4) – (dirigindo-se à Margarida) – Então, os seus filhos? Boas notas na escola?

MARGARIDA (2) – Vai-se andando! Eles daqui a pouco já devem aparecer. Não sei se vêm, mas adoram arraiais.

JOSÉ (6) – Sentem-se ali naquela mesa que eu vou com o ZÉ PEDRO beber uma imperial. Quero discutir uns assuntos com ele.

MELISSA (5) – Está bem, querido, vai lá falar dos teus negócios. Nós vamos pedindo a comida…

 

Cena III:

(Entretanto os filhos da família do José entram no recinto do arraial. Vem a discutir, pois detestam aqueles ambientes e não conhecem ninguém com quem se possam divertir. Chegam à festa, todos bem «enfarpelados» e a cheirar a água-de-colónia, visto que pretende sair depois da festa)

MIGUEL (1) – Eh pá! Isto vai ser uma «g’anda» seca. Os cotas têm a mania de vir a estas cenas, ainda não percebi bem porquê. Não topamos quase ninguém no bairro, é tipo uma seca. Onde vamos depois de basarmos daqui?

SARA (1) – Eu não sei se vou a algum lado. O papá pediu para eu o ir ajudar lá na fábrica amanhã de manhã, a organizar os papéis para a contabilidade.

MIGUEL (2) – Tu também só sabes fazer a vontade ao velho. Por causa disso está sempre a mandar-me bocas. Que eu não estudo, não ajudo na fábrica, sempre a mesma treta. Ganda seca! P’ra ele nunca faço nada bem.

LUISINHO (1) – Vocês estão sempre a discutir. Parem lá com isso. Até parece que estão sempre a competir para ver quem é o melhor filho! Parvalhões!

MIGUEL (3) – Cala lá essa boca senão daqui a bocadinho levas uma lamparina!

LUISINHO (1.1) – Vê lá, vê!

SARA (2) – Parem lá com essa conversa parva. São mesmo bebés!

 

Ato II

Cena I:

(Pai e mãe pobres conversam com os pais ricos sobre o ano escolar dos filhos)

ZÉ PEDRO (2) – Trouxemos-vos aqui uns caracóis para vocês provarem…

MARIA ERMELINDA (2) – Aposto que não são melhores do que os que eu faço. Deixa-me lá provar um!

JOSÉ (7) – De certeza que não, D.ª Ermelinda. Mas os caracóis hoje em dia estão a ficar cada vez mais caros.

MARGARIDA (3) – Se fossem só os caracóis!

MELISSA (6) – O que vale é que o negócio do José corre bem. Senão não sei onde íamos parar.

MARGARIDA (4) – Se não fosse o emprego do Zé Pedro, nós passávamos dificuldades.

JOSÉ (8) – É verdade. O Zé Pedro disse-me no outro dia que tinha ficado desempregada. Ainda não conseguiu encontrar nada?

MARGARIDA (5) – Cada vez é mais difícil arranjar trabalho. Quando vou ao centro de emprego são filas infernais.

MELISSA (7) – Eu nem quero pensar nesses assuntos. Eu estou preocupada com o meu Miguel. Acabou por reprovar este ano, por causa das noitadas. Assim nunca mais vai acabar o curso…e com esta crise, não sei o que ele vai fazer.

MARGARIDA (6) –  A minha Joana também já não tem emenda. Reprovou novamente no nono ano.  É só rapazes e discotecas… Nunca mais ganha juízo.

MELISSA (8) – Ah, a minha Sara é muito boa rapariga. Agora até anda a ajudar o meu José lá na fábrica. E parece que trabalha muito bem. Já não posso dizer o mesmo do mais pequeno. Lá na escola o Luisinho anda sempre a arranjar problemas. Agora anda a ter apoio do psicólogo.

MARGARIDA (EXTRA) – A minha Mariana, também não vai muito bem lá na escola. O que ela gosta mesmo é de implicar com a irmã.

MARGARIDA (7) – No caso do meu Carlos, o mais velho,  eu não tenho de me preocupar. Está a terminar medicina com excelentes notas e já tem um convite para ir trabalhar num hospital.

MARIA TERESA (4) – O grande problema é que não vejo nenhum espírito de iniciativa no meu neto mais velho, o Miguel. Mesmo que não tirasse o curso deveria interessar-se por alguma coisa que lhe proporcionasse algum meio de vida.

MARGARIDA (8) – Olhe, a minha vizinha é que é um bom exemplo… Ficou desempregada e decidiu dedicar-se às artes… Fez um «atelier» em casa e vende para fora. E parece que está a ter sucesso. Pelo menos vejo-a atarefada com as encomendas. Pode ser um negócio pequeno, mas pelo menos gosta do que faz e demonstra iniciativa.

Cena II:

(Os filhos da família do Zé Pedro entram também no recinto e encontram os filhos do José. Trocam opiniões sobre o programa da noite, depois do jantar no arraial. Começam a surgir pormenores escolares de cada um, vistos pelo prisma dos filhos.)

JOANA (1) –  Isto está muito parado. É só cotas.

CARLOS (1) – Ainda é cedo. Só são dez horas da noite. As pessoas ainda estão em casa a jantar.

MARIANA (1) – Olha, Joana! Está ali o Miguel! Não queres ir dar-lhe um beijinho?

JOANA (2) – Cala-te que eu não quero que ninguém oiça.

MARIANA (2) – A rebelde cá do bairro está envergonhada? UUUUUh!

CARLOS (2) – Mariana, vê se te portas decentemente.

(Aparecem o Miguel, a Sara e o Luisinho Miguel dirigindo-se à Joana)

MIGUEL (4) – Finalmente alguém de jeito! Já estava farto de estar aqui a secar sozinho!

JOANA (3) – Acabámos de chegar. Quais são os teus planos para esta noite?

MARIANA (3) – Espero que seja alguma coisa divertida.

JOANA (4) – Já a formiga tem catarro! Ainda não tens idade para isto!

SARA (3) – Não sejas assim para a tua irmã.

JOANA (5) – Ela é que está sempre a meter-se comigo.

CARLOS (3) – Então Sara, mudando de assunto? Os teus exames? Correram bem?

SARA (4) –  Sim, correram bem. No início estava um bocadinho nervosa, mas os testes correram bem e tive notas excelentes.

CARLOS (4) – E qual a área que vais escolher?

SARA (5) – Estou a pensar em seguir gestão, porque depois posso seguir as pisadas do meu pai. Gostava muito de gerir a fábrica.

CARLOS (5) – Ainda bem. Se gostas de ser empresária e de correr riscos, é o caminho certo. Nós devemos lutar pelo que consideramos certo. Eu por mim, prefiro optar pelo seguro.

LUISINHO (2) – Eu vou ter com os pais porque estou cheio de fome. Quero ver se como qualquer coisa.

TODOS: Nós já lá vamos ter.

Cena III:

(Os jovens aproximam-se da mesa dos pais. Estes continuam a falar sobre a crise e a forma de resolvê-la.)

ZÉ PEDRO (3) – Em relação a outro emprego, eu já pensei que tu podias trabalhar na área da costura e abrir um atelier de arranjos de roupa, ou assim…

MARGARIDA (9) – Até que nem era uma má ideia. Mas onde vamos arranjar dinheiro para o investimento inicial?

JOSÉ (9) – Então e se eu lhe arranjasse alguma coisa lá no escritório da fábrica? Estava interessada?

MARGARIDA (10) – Claro que estava. Isto está tão difícil. Ficava-lhe muito agradecida.

MELISSA (10) – Olha, vêm ali os nossos filhos! Já se encontraram… Vêm todos em grupo.

LUISINHO (3) – Então já pediram alguma coisa para comer? Eu estou cheio de fome.

SARA (6) – Então de que é que vocês estão a conversar?

MIGUEL (5) – Só pode ser de coisas chatas… trabalho, escola, cursos…blá,blá,blá…

JOSÉ (10) – Tu hás de ter de crescer um dia, criar família, ter um emprego a sério… E não te estou a ver preocupado com o assunto… Enquanto os papás avançarem com o dinheiro, tu estás na maior.

MIGUEL (6) – Mas desde quando é que um curso é a resposta para tudo? Eu posso arranjar um emprego como empresário em nome individual… No outro dia houve um colega meu que me perguntou se eu queria criar uma escola de surf com ele. E eu gostava muito… o surf é o meu desporto preferido.

MARIANA (4) – Eu cá estou com fome. Queria comer alguma coisa.

LUISINHO (4) – Boa ideia. Nós viemos cá para comer e não para conversar sobre emprendorismo.

SARA (7) – Em-pre-en-de-do-ris-mo! Pelo menos diz bem a palavra!

LUISINHO (5) – Isso!…

JOSÉ (11) – ( Dirigindo-se ao empregado) – Olhe…Pssst! Se faz Favor!

EMPREGADO (1) – ( Aproximando-se ) – O que desejam?

JOSÉ (12) – Traga meia dúzia de bifanas e quatro pires de caracóis.

EMPREGADO (2) – E para beber?

JOSÉ (13) – Traga dois jarros de sangria, duas colas frescas de litro e meio, e duas garrafas de litro de água…

EMPREGADO (3) – ( Para o homem do Churrasco) – Manel, 6 bifanas para a mesa 3! ( Para o bar) Quatro de caracóis, duas sangrias, duas colas grandes e duas águas grandes! Rápido! Para a mesa 3!

Ato III

Cena 1

(O homem do churrasco ouve a conversa e dirige-se a ambas as famílias)

HOMEM DO CHURRASCO (1) – ( Entrega os pratos das bifanas) -‘Tava aqui a ouvir a vossa conversa, e realmente os tempos de hoje estão cada vez mais difíceis: pouco dinheiro, muito desemprego… Mas mesmo assim, uma pessoa não pode ficar parada. As coisas não caem do céu aos trambolhões! Olhem p’ra mim! Perdi o emprego, mas não quis ficar parado… Vim pr’aqui vender febras e sardinhas…

HERNÂNI (1) – Eu, com a minha idade, também já passei por muito. Já houve alturas em que não tive emprego e tive que arranjar uns biscates. Já fiz de tudo: já fui trolha, já fui canalizador, já dei serventia a electricistas… E nada disto tem a ver com a arte que aprendi, mas não podemos deixar que o espírito empreendedor morra dentro de nós!

ALBERTO (1) – Na minha opinião, com a situação de crise actual, o que era importante para os miúdos era tirarem um curso e garantirem um emprego seguro, mesmo que não fosse muito bem pago.

HOMEM DO CHURRASCO (2) – Deixe lá os rapazes em paz. Eles se calhar até têm razão para não quererem tirar um curso! O que é que eles fazem com o canudo? Nada!

HOMEM DO BAR (1) – (gritando para o empregado) – Ó Jarbas! Já aqui estão os caracóis a arrefecer!

SARA (8) – Isso nem sempre quer dizer nada. O conhecimento é importante e transforma uma pessoa. Mas isso não quer dizer que se tenha de esperar pelo emprego na área de que se tirou o curso… (Dirigindo a palavra ao avô Alberto) – O´avô, eu até posso concordar com o que disseste, mas acho que uma pessoa deve seguir o seu sonho, e o meu sonho é seguir as pisadas do meu pai! Uma pessoa deve fazer aquilo que gosta.

EMPREGADO (4) – ( O empregado traz os caracóis ) Aqui estão os caracoizinhos! Já trago as bebidas!

HERNÂNI (2) – Mas por vezes aquilo de que nós gostamos não resulta. Temos de ter sempre um plano B.

HOMEM DO BAR (2) – (  Para o Jarbas) – Olha as bebidas! Não as deixes aquecer!

SARA (9) – Mas apesar de às vezes o que nós gostamos não nos dar dinheiro, devemos tentar desenvolver aquilo que nós gostamos, para que quando se feche uma porta, se abra sempre uma janela!

MIGUEL (7) – Pois, aquilo que eu acho é que os nossos pais têm de parar com esta cena dos cursos! Podiam era apoiar-me na criação da minha escola de surf.

EMPREGADO (5) – (Com as bebidas) – Agora são as bebidinhas! Acho que está tudo! Bom apetite.

JOANA (6) – Pois, eu também acho! No meu caso eu gostava de abrir uma discoteca ou um bar.

MIGUEL (8) – Essa era uma cena fixe!

SARA (10) – Pois, ‘tá-se mesmo a ver! Estavas lá sempre caído!!!

Cena II

(Margarida vê a sua vizinha, Amélia que entrou no recinto com o seu marido, António, mecânico de automóveis.)

MARGARIDA (11) – D.ª Amélia! D.ª Amélia! Venha pr’aqui pr’ó pé de nós! Estava aqui a falar à D.ª Melissa da sua nova iniciativa… Venha cá contar como se está a dar!

AMÉLIA (1) – Olá boa noite a todos!. Não vale a pena incomodarem-se… Nós vamos sentar-nos ali noutra mesa.

JOSÉ (14) – Nem pensar! Eu vou já arranjar umas cadeiras… Vá, sentem-se aqui. ( virando-se para a D.ª Amélia) Então conte-nos lá a sua aventura! Estávamos aqui a ver se conseguíamos convencer os jovens a tomarem juízo e a estudarem para arranjarem um bom emprego.

AMÉLIA (2) – Ah, sabe, isso dos estudos pode ser muito bom, mas por vezes não é o canudo que nos safa! O que interessa é termos uma força cá dentro que nos ajude a pegar o touro pelos cornos… O que importa é o que está dentro da nossa cabeça e a massa que nos está no sangue.

MELISSA (11) – Pois, D.ª Amélia…mas se eles tirarem um curso pelo menos sempre têm outras hipóteses de encontrarem um outro emprego mais bem remunerado…

MARIA TERESA ( 5)  – Eles agora não têm a vida nada facilitada. Antigamente as coisas eram mais calmas e seguras. Sabíamos com o que contávamos…

AMÉLIA (3) – É verdade D.ª Maria Teresa… Mas nos tempos que correm, uma pessoa não se pode deixar vencer. Tem de enfrentar a situação. Se eu ficasse à espera de encontrar o emprego que eu queria, quem me fazia entrar dinheiro lá em casa? Só o vencimento do meu marido não chega… e, além disso, a carpintaria dele também está com problemas… O pessoal não tem dinheiro, não compra móveis, nem tem dinheiro para renovar a casa ou …

ANTÓNIO (1) – Nem móveis nem outras coisas. Antigamente os soalhos, os tetos falsos de madeira, os forros dos telhados ainda nos traziam algum dinheiro, pois o pessoal na primavera fazia os arranjos da casa e dos telhados. Agora, com os novos materiais artificiais de plástico, a madeira é sempre mais cara e o pessoal não tem dinheiro! Quem é que manda agora fazer uma mobília de quarto em madeira maciça? Só de madeira prensada, mas eu não gosto desses materiais…

ALBERTO (2) – Eu de facto nunca vi nada igual. Nem no tempo da segunda guerra, as coisas estiveram tão feias… Havia falta de coisas, bichas no pão, mas havia trabalho para todos os que queriam trabalhar…

MIGUEL (9) – Pois, a ganharem uma miséria, que era aquilo que se pagava no tempo do Salazar! E biquinho calado senão ainda ias parar à prisão.

MARIA TERESA (6) – Cala-te lá com essas politiquices… Depois queixa-te que o teu pai se passa contigo! Muda lá de assunto…

 

 

 

 

Cena III

ZÉ PEDRO (4) – Então e o menino Miguel, o que pensa fazer no futuro?

MIGUEL  (10) – Não sei bem! Mas o curso que o meu pai quer que eu tire, essa não! Quero ver se me lanço na minha própria empresa. Quero ver se monto uma escola de surf.

ANTÓNIO (2) – Acho que faz muito bem em pensar assim. Com espírito empreendedor é que o nosso país pode sair desta crise. Temos todos de dar a volta. Se precisar de ajuda, diga que eu ajudo no que puder.

JOANA (7) – Eu também ajudo. É só pedires que eu venho logo a correr. Também acho que temos todos de fazer algo diferente.

ZÉ PEDRO (5) – Assim mesmo é que eu gosto de ouvir a juventude! Vamos fazer uma saúde! Levantemos os copos pelos nossos filhos!

FILHOS LEVANTAM OS COPOS EM UNÍSSONO – Jovens de todo o país! Deixem-se de esperar que o futuro venha ter com vocês! Não deixem de estudar! Mas vocês são o futuro e ele está à vossa espera! Sejam empreendedores! Sejam criativos! Sejam os Homens de amanhã!

FIM

Anexo I:

Lista de Personagens

Alberto – Marido de D.ª Maria Teresa, pai do José empresário (representado por Ricardo Pessoa)

Maria Teresa –  Mãe do empresário José ( representada por Carolina Rosa )

José – Empresário dono da fábrica de louças sanitárias ( representado pelo Guilherme Costa)

Melissa – Mulher de José ( representada por Catarina Carapinha

Miguel – Filho mais velho de Jo´se e Melissa ( representado por Gonçalo Oliveira)

Sara – Filha do meio de José e Melissa ( representada por Sofia Carvalho )

Luisinho –Filho mais novo do casal ( representado por  Rui Almeida)

Hernâni – Pai do Zé Pedro ( representado por Francisco Oliveira)

Maria Ermelinda – Mulher de Hernâni ( representada por  Clara Parente)

Zé Pedro – Empregado do empresário José e filho de Hernâni e Maria Ermelinda ( representado por Manel Arcângelo

Margarida – Mulher de Zé Pedro ( representada por Mafalda Magalhães)

Carlos –  Filho mais velho de Zé Pedro e Margarida ( representado por João Sousa)

Joana – Filha do meio de casal ( representada por  Kiara Ferraz)

Mariana – Filha mais nova e irreverente do casal ( representada por Ísis Carvalhal)

Homem do Churrasco – Representado por Diogo Esteves

Amélia – Amiga da família de Zé Pedro e Margarida (Representada por Inês Silva)

António – Marido de Amélia, Tem uma oficina de carpintaria ( representado por João Cruz)

Empregado de Mesa – (representado por Afonso Lourenço)

Dono do Bar – (Representado por João Magalhães)

Lista de Adereços:

Grelhador feito em papelão

Mesas e cadeiras

Simulações de pães / pão duro, cortado a meio com um tecido grosso a imitar as febras (4).

Pires de caracóis (4) – pratos descartáveis, com papel amarrotado, e com caracóis colados

Copos e guardanapos e toalhas de mesa

Garrafas de coca-cola (2) e água de litro e meio(2)…

Jarros de plástico transparente, simulando sangria…

Balcão do bar

Tabuleiros para o empregado de mesa

Grelha e abano

Peixes a grelhar feitos em cartão e pintados de tinta cinzenta b

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