AS MINHAS MEMÓRIAS DOS EXAMES

A Ilha do Sal

Aquele dia de início de Verão, ia ser um dia muito importante para o meu futuro. Pelo menos a ter em conta os reparos que a minha mãe fazia, enquanto me ia arranjando o cabelo e penteando a franjinha antes de sairmos de casa.

Tomei a habitual chávena de leite com Milo, a qual tinha de beber depressa senão ficava com as natas à superfície e eu não gostava de beber o leite e ficar com as natas agarradas ao lábio superior. Nunca gostara.

A viagem para Santarém foi um suplício, pois o leite, zangado por ter sido bebido à pressa, parecia ter-se encarniçado contra o meu futuro. Obrigou o meu pai a parar duas vezes e lá fui eu chamar pelo gregório, junto de uma moita mesmo à borda da estrada.

Quando cheguei a Santarém, uns quilómetros de agonia depois, o sabor do leite vomitado ainda impregnava a minha boca. Fiz a prova escrita, mas o melhor estava ainda para vir. Depois do exame escrito, havia o exame oral.

Estava no corredor com os meus pais e a minha professora, e ouvi chamar o meu nome.

– És tu agora, Zé, vai lá e porta-te bem. Boa sorte.

Entrei na sala a medo, e vi os três professores que erguiam as cabeças por cima das enormes secretárias castanhas escuras, que ainda eram mais altas por estarem encavalitadas em cima do estrado.

Sentei-me na carteira que me foi indicada, mesmo em frente das secretárias, cá em baixo, pequenino, perante toda a imponência judicial do exame oral.

Mas correu-me bem o exame. Teria corrido exemplarmente se depois de todas as respostas sobre reis e dinastias, batalhas sangrentas, rios afluentes e caminhos-de-ferro incongruentes que só existiam na minha memória, não tivessem vindo os arquipélagos estragar o arranjinho.

– Muito bem, menino José – disse em voz austera e profunda o professor. – Então agora vamos à Geografia. É capaz de me dizer um dos arquipélagos de Portugal?

Eu senti-me contente, pois essa matéria sabia-a bem. Gostava de observar os mapas lá na sala de aula, com todas aquelas formas e cores misteriosas. Além disso tinha um atlas em casa, dos meus pais, que por vezes abria para ir procurar informação sobre o continente e ilhas adjacentes…

E lá nomeei eu o arquipélago da Madeira e dos Açores, e depois os arquipélagos situados na costa africana, Cabo Verde e São Tomé e Príncipe. Mas o professor gostou mais de Cabo Verde…

-Então diga-me lá quais são as ilhas que compõem o arquipélago de Cabo Verde – perguntou ele naquela voz tumular que troava na sala.

Eu sabia que algures na sala atrás de mim, os meus colegas, os meus pais, os pais dos meus colegas e a minha professora estavam à espera que eu acabasse a prova oral, para depois irmos todos embora.

– Santiago, Maio, Boavista – comecei eu a tentar lembrar-me das ilhas todas. – Brava, S. Nicolau, São Vicente, Rasa, Santa Luzia e Santo Antão… Parece-me que são todas.

Mas o professor mostrou uma linha de dentes brancos, quando ficou com um sorriso ligeiramente irónico.

– Não estão, não, menino. Pense lá bem, que lhe falta uma.

Eu já tinha começado a ficar nervoso, pois a figura do professor agigantava-se perante a minha aparente ignorância. As minhas mãos tremiam e estavam suadas.
E eu não me conseguia lembrar de mais ilha nenhuma. Voltei a dizê-las baixinho para mim, mas não faltava nenhuma, repetia eu comigo mesmo.

– Eu já as disse todas, senhor professor, não falta nenhuma…

Na sala por trás de mim comecei a notar que havia um burburinho misturado com uns risinhos abafados, e ainda fiquei mais tenso, pois aparentemente havia de facto mais uma ilha que eu não me conseguia lembrar e isto ainda poderia dar para o torto.

– O menino José sabe fazer sopa? – perguntou inopinadamente o professor.

– Nunca viu a sua mãe a fazer a sopa? Há uma coisa que a sua mãe põe na sopa e que é muito importante – dizia ele com um tom de troça na voz. E olhou para os seus colegas de júri, que também já se tinham começado a rir.

E eu ainda fiquei mais embatucado. Estava tudo perdido, pensava eu para comigo. O que raio é que a sopa que a minha mãe fazia tinha a ver com as ilhas do arquipélago de Cabo Verde?

– Então, diga-me lá como a sua mãe faz a sopa – continuava ele com a sua voz troante.

E eu expliquei. Tentei puxar das minhas memórias, as poucas vezes em que brincando na cozinha, via a minha mãe ou a Aurora, a começar a fazer aquela sopa de feijão horrorosa que tínhamos todos de comer lá em casa. E talvez tenha sido isso que me acalmou, pois acabou por me distrair do ambiente tenso que se tinha gerado na sala.

E lá expliquei eu que ela punha água ao lume, numa panela, que punha batatas descascadas, cebola, feijão, azeite, uns dentes de cravinho (lembrava-me do sabor horroroso quando o trincava)…

-E a sua mãe não põe mais nada? Tem mesmo a certeza de que a sua mãe só põe isso na sopa?

Nessa altura a minha cabeça já tinha deixado de obedecer ao meu raciocínio e nela só ecoavam as gargalhadas e risos do público que estava na sala. Os meus colegas não iriam parar de me gozar.

– Acha mesmo que a sua mãe não põe mais nada na sopa? – Continuava ele sem perder a força. – Então não lhe põe sal?

E foi aí que eu percebi tudo. Era o sal, tão parvinho que eu fora. Então não me tinha esquecido da única ilha que tinha um nome normal?

– Ah, pois…é a ilha do Sal, senhor professor – Respondi eu numa voz tremelicante. – Desculpe mas esqueci-me dessa.

– A partir de hoje, de certeza que o menino se vai lembrar que tem de pôr sal na sopa, não é? Pode ir então. Um bom dia.

E eu levantei-me. Dirigi-me aos meus pais, já com as lagrimitas a querer saltar, teimosas, dos meus olhos. Tinha sido uma vergonha e toda a gente se rira de mim.
Mas quando a minha mãe e a professora falaram comigo, deram-me os parabéns, pois eu tinha-me portado muito bem na oral e só não me tinha lembrado da ilha do Sal. Mas eu não compreendi por que razão o professor se tinha dirigido a mim naquele tom de voz insinuante, inquisitório, como se da minha falta de resposta dependesse o equilíbrio do mundo.

Este episódio ainda se mantém na minha memória. Na altura, aquele cenário de inquisição assustou-me pelo mero facto de que eu não estava habituado àquilo, estava num liceu estranho, com salas estranhas a tresandar a cera, e com professores que mais pareciam gárgulas, tão interessados estavam em tentar manter as crianças aterrorizadas.

Hoje, sendo professor há já trinta e seis anos, conto esta história muitas vezes aos meus alunos. Falo de todo o cenário do tempo da outra senhora, em que as salas estavam ensombradas pelos retratos dos senhores presidente do conselho e presidente da república da altura, enquadrados por um crucifixo onde o cristo sacrificado consagrava o terror imposto pelos algozes que eram os professores.

Ainda me lembro que os senhores severos dos retratos estavam sempre a olhar na nossa direção qualquer que fosse o lugar onde estivéssemos. Parecia mesmo que estavam sempre a acusar-nos de alguma falha que tivéssemos feito, qualquer que ela fosse. E havia sempre muitas falhas. Às quais correspondiam frequentemente outras tantas reguadas.

Os meus alunos de agora riem-se. Os tempos mudaram. Não sabem o que são exames. Não sabem o que é um ritual de passagem. Os grandes momentos importantes da vida perderam o seu valor.

Na minha memória, este exame oral junta-se a outros exames e a outros momentos ao longo do meu liceu, em que outros professores, igualmente prepotentes exerciam a sua autoridade com mão de ferro.

No entanto chamo-lhes a atenção para o simples facto de que a vida é composta por fases diversas, e que, no final de cada uma, há um ritual de passagem, que é igualmente importante para a legitimação pública dessa passagem e para a entrada num outro período da vida.

Mas, embora haja exames novamente, o ambiente não é o mesmo, a opressão do regime não existe e a presença dos professores não é aterrorizadora. Nem os exames representam um ritual de passagem para as crianças. Pelo menos aparentemente, elas não têm a noção da sua importância, nem percebem que, em cada desses momentos, a sua personalidade, de uma forma ou outra, sai reforçada.

Em direção ao futuro.

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