Resposta ao artigo “37 anos de enganos”

Resposta ao post de Professor Ramiro Marques que se pode encontrar no link a seguir.
http://www.profblog.org/2011/06/37-anos-de-enganos.html#more

Habitualmente eu venho aqui, leio e abstenho-me de “botar faladura” pois as pessoas têm direito a ter as suas ideias…
Mas quando vejo demagogia a mais, tenho tendência a ferver um pouco… Por isso aqui vai…

As palavras são perigosas e têm de ser usadas com cuidado, para que as pessoas não formem ideias erradas, principalmente as que não viveram como adultos antes de 1974.

“talvez não saibam que, em 1973, a economia portuguesa cresceu 11%.”
– Também é importante referir que 1973 foi o ano do primeiro choque petrolífero e que nesse ano a gasolina aumentou terrivelmente. Não era muito grave no entanto, pois só os ricos tinham carros… Nem sei bem quantos vencimento seriam necessários para comprar um automóvel…mas seriam muitos mais do que agora…e não havia nem cartões de crédito, nem empréstimos a pessoas comuns…

“Também não sabem que Portugal, durante as décadas de 40, 50 e 60 do século passado, foi dos países do Mundo que mais cresceu.
(…)que nas décadas de 50 e 60 do século passado, o PIB português cresceu, em média, 7% ao ano.”
– Também é importante referir que essas décadas foram as décadas de crescimento em toda a Europa e Portugal foi igualmente arrastado pelo “boom” da economia do pós-guerra. A economia da altura traduzia-se na frase de Salazar que afirmava que o vinho dava de comer ( e beber ) a um milhão de portugueses… De referir que uma grande parte da população bebia de facto vinho ao pequeno almoço a que chamava “sopas de cavalo cansado”…ou “mata-bicho”… temperadas com broa…
Também não entrou na segunda guerra pelo que conseguiu fugir à enorme destruição que afectou toda a Europa. Por isso produzia muito para a Europa, aliás como os Estados Unidos, facto que os fez renascer depois da Grande Depressão

“a taxa de desemprego era, em 1973, inferior a 3%”
– Também se deve referir que a maior parte da população vivia da agricultura de subsistência, aliás a grande aposta de Salazar para manter o povo calmo….enquanto trabalhava não tinha ideias disparatadas

“Na frugalidade, é certo. Mas não na pobreza.”
– Chamar frugalidade à vida da maior parte das pessoas do país que viviam da agricultura, é um puro eufemismo: as casas não tinham o mínimo conforto. Não tinham água corrente ( ia buscar-se à fonte); não tinham luz eléctrica ( candeeiros a petróleo); não tinham casa de banho ( uma casinha na horta construída com canas ); enfim, de facto era uma vida frugal…demasiadamente frugal…No contexto de hoje era pobreza completa…

“a economia portuguesa regride, depois de ter estagnado durante toda a primeira década do século XXI”
– o grande problema, mas ao qual era difícil de fugir depois de 48 anos de miséria, foi pensar que estava tudo errado; pensar que todos tinham direito a ser doutores como os ricos; que a escola era para ser unificada e não a dos pobres ( industrial e comercial ) e a dos ricos ( o liceu)…
Depois acabaram por piorar o problema quando ensinaram às crianças que um doutor não “queimava as pestanas ” para depois andar a trabalhar no campo ou a conduzir um tractor, ou a construir casas…Isso sujava muito as mãos e criava calos…
A consequência é que se acabou com a pouca indústria que havia; com a pouca agricultura que havia, pois os jovens “piraram-se” do campo para a cidade onde poderiam ter uma vida melhor;Quem conheceu Lisboa nos anos 70 sabe do que eu estou a falar…Para se ir do Campo Grande para o Lumiar era um passeio por um zona que se assemelhava muito a um bairro de gente rica envolto numa paisagem campestre…

“a taxa de desemprego atinge os 12%”
– Com a crise mundial e com as empresas a irem à falência, é natural que não haja empregos, e o betão e o alcatrão de alguns governos das duas últimas décadas não dá para dar de comer às pessoas nem para lhes dar trabalho…
Claro que depois, com um canudo e um curso superior, ninguém vai querer menos do que um emprego onde se ganhe bem e não se “suje as mãos”…
Além disso, quem teria eventualmente dinheiro para investir na economia real, prefere muito mais colocá-lo em acções que não “dão cabelos brancos” e rendem muito mais dinheiro…
Mas mesmo assim, todos querem ter o último PC ou Mac, o último iPad, o último smartphone, um bom automóvel para andar a passear, umas férias no estrangeiro…porque depois é o cartão de crédito que paga…
Quem andou na faculdade clássica nos anos 70, percebe bem o que eu quero dizer quando passa na alameda da faculdade hoje em dia…antigamente os carros paravam num estacionamento em espinha à frente da reitoria…Hoje chegam a dar várias voltas e chegam quase a meio da alameda…isto para além dos parques de estacionamento que entretanto foram criados por todo o lado… De onde veio todo o dinheiro para comprar esses carros todos? para comprar casas (antigamente arrendavam-se, mas o Salazar congelou as rendas em 1961 )?…e ninguém se apercebeu do enorme problema que estava a ser criado…

“Dois salários médios (800 euros cada) são insuficientes para sustentar uma família.”
– Bem, onde anda a frugalidade agora? Há muita gente que não tem esse dinheiro ao fim do mês…e vive…Pode não viver “à grande e à francesa” como se dizia antigamente, mas se tiver cuidado vive com esse dinheiro…

“Um Estado que guarda para si 50% de toda a riqueza produzida não pode aspirar a que as empresas estrangeiras invistam em Portugal nem que os empresários portugueses queiram criar novos negócios.”
-De que outra forma se pode querer manter este estado de coisas? O estado não tem dinheiro! o dinheiro vem-lhe dos nossos impostos… Pode estar errado, mas a culpa não é do estado, é de todos nós…porque fomos nós que fomos vivendo no engano e não nos apercebemos do que aí vinha.
Além disso fomos nós que fomos votando para que o estado existisse. Não podemos é ser hipócritas e dizer que tudo é culpa dos governos depois do 25 de Abril. Então o que andávamos nós a fazer? Andávamos distraídos? Se calhar andávamos distraídos com os empréstimos que fizemos para comprar cas, carro, e tudo o resto.

Todos gostamos muito das escolas que foram sendo construídas ( havia tão poucas que qualquer coisinha era melhor do que o que existia); todos gostamos muito de ir até Torres Novas em 45 minutos ( no meu tempo de faculdade demorava-se quase duas horas e meia…e com sorte); todos gostamos muito de levar 5/6 horas até Bragança ( eu tinha um colega de Mirandela que dizia que demorava um dia inteiro para lá chegar e tinha de sair de Santa Apolónia bem cedinho)…

“por um lado uma guerra colonial condenada à derrota”
O problema não era só a guerra colonial…era tudo aquilo que isso representava para a Europa e para o Mundo…num mundo em completa mudança…

“a falta de liberdade de expressão e a ausência de eleições verdadeiramente livres.”
– Em relação a isto nem vale a pena fazer qualquer afirmação. Só quem viveu antes de 1974, e conheceu o ambiente que se vivia na cidade e no campo, é que sabe o que isso quer dizer… para muitas das pessoas adultas de hoje em dia ( pessoas com menos de 45 anos ) as implicações passam ao lado…só por “hearsay”…

“Podia ter havido uma transição suave para a democracia não fosse a questão da guerra colonial.”
– Só quem não viveu o 25 de Abril como adulto é que pode dizer que devia ter havido uma transição… Uma barragem, quando rebenta, também se consegue travar com um painel de madeira?

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