Adquirir ou não quadros interactivos, eis a questão!

O eterno problema da inovação, da integração das tecnologias… O Restelo e os Velhos…

Nos últimos tempos, como tenho andado a tratar de múltiplos aspectos relativos à aquisição de quadros interactivos para o colégio, tornei-me mais sensível a todos os artigos no Twitter e no Facebook que mostram diversas perspectivas sobre o problema do (des)uso dos quadros em sala de aula.

Em vários artigos, vi opiniões que consideravam os “Quadros interactivos bengaleiros caríssimos”, conselhos para se “ponderar o dinheiro a gastar na sua aquisição” e se “valerá a pena”…

Em muitos dos artigos vi muitas referências aos quadros, mas poucas aos professores. E pensando sobre o assunto consciencializei algumas ideias:

  1. Quando há inventos e novos aparelhos que vêm a ser usados de novo, normalmente isso mexe sempre com as mentalidades instaladas. Quando se descobriu a esferográfica, também se disse muito mal da invenção…mas será que não foi importante? Quando apareceu a televisão, não era ela a raiz de todos os males? E os meios audiovisuais na escola dos anos 80 do século passado? Não se dizia que isso era apenas uma forma de passar o tempo a mostrar a realidade e que os alunos não aprendiam verdadeiramente… E o que dizer de quem afirma que tem de se ter muito cuidado na aquisição de quadros interactivos,  pois daqui a meia dúzia de anos já se descobriu outra coisa e os quadros interactivos tornar-se-ão obsoletos? Se formos ficar à espera da última moda, de facto não vale a pena fazer nada.
  2. Eu continuo a pensar que o problema não está verdadeiramente nos meios usados. O quadro interactivo é apenas uma ferramenta, como um computador também o é… e mesmo assim há pessoas que acham que os computadores servem apenas para jogar… Tudo depende da forma como racionalizamos a transmissão do conhecimento e o que se pretende com o ensino. Mas nunca tivemos uma ferramenta tão poderosa que permite simultaneamente o mesmo que já se faz com a antiga ardósia ou com os quadros cerâmicos, mas depois permite ainda trazer para dentro da sala de aula as possibilidades de visionamento de documentos audiovisuais, de pesquisa través da internet, de utilização de ferramentas de gravação, de utilização de recursos feitos à medida ou importados de escolas do outro lado do mundo.
  3. Nunca estivemos tão perto de um ambiente perfeito de partilha do conhecimento, de colaboração entre agentes dispersos, falantes de várias línguas, mas que partilham ideias, mundos, conceitos, etc. É claro que se pode dizer que os quadros interactivos não são necessários, mas, do meu ponto de vista, forçando um pouco a nota,  o mesmo se pode dizer da maior parte das ferramentas que têm vindo a ser inventadas, produzidas e comercializadas desde a revolução industrial. O facto é que o ensino já não é o da revolução industrial… Já foi muito caminho percorrido, e o objectivo da actual sociedade será sempre a partilha total de tudo, por todos, à medida de cada um.
  4. O caminho para uma facilitação da informação é um caminho irreversível. E, de qualquer modo, nunca serão os quadros interactivos a melhorar a qualidade do ensino… pois a qualidade do ensino está na forma como quem ensina se relaciona com o grupo que é ensinado e o seu contexto social e cultural. Agora, que poderão ser uma poderosa ferramenta, disso não tenho a menor dúvida. E também não servirá de muito ter uma posição contra a sua aquisição, pois considero que será um caminho que todas as escolas irão acabar por seguir, mais tarde ou mais cedo.
  5. É para mim óbvio que caminhamos para uma sociedade em que cada um irá aprender aquilo que pretende, à sua própria velocidade, sem estar dependente de grupos ou de docentes que gerem grupos dentro de uma sala de aula. Mas o ensino à distância à medida de cada um não é aplicável a todos os graus de ensino da mesma forma e estará sempre relacionado com o ensino de adultos, pessoas já com um grau de responsabilidade que lhes permitirá a aprendizagem à sua própria velocidade.
  6. Nas últimas décadas passámos do professor detentor do conhecimento perante os seus alunos, para o professor gestor de conhecimentos e da sua aquisição. O mundo já não é o que era e o conhecimento já não é apenas posse do professor, pois este, mesmo que queira, não consegue acompanhar o passo da transmissão da informação em termos globais. Todos temos consciência da qualidade de uma enciclopédia em volumes, no mundo de hoje. A maior parte delas estarão dentro de móveis poeirentos, abandonadas, porque já ninguém ( ou muito poucas pessoas) as usa pura e simplesmente porque são estáticas.
  7. Mas também tenho a percepção de que, se tivesse havido  quadros interactivos no meu tempo de escola, isso teria feito a diferença para alguns dos professores. Para outros nem os estou a ver a dinamizar aulas, pois não tinham o mínimo espírito criativo e dinâmico. A passagem do conhecimento para eles era uma coisa que tinha de ser fria e chata, porque era preciso sacrifício para se aprender. Por irónico que pareça, hoje estamos nos antípodas desse ponto de vista…as coisas só se aprendem se derem prazer. In medio virtus
  8. E termino dizendo que, na minha opinião, a validade da utilização dos quadros interactivos está nos docentes, na sua capacidade criativa e na sua dinâmica para utilizarem os melhores meios para passarem as melhores mensagens e ensinarem os alunos a serem criativos. É claro que alguns irão aprender rapidamente e outros mais lentamente pois a motivação não é igual em todos. Serve isto apenas para dizer que a aquisição dos quadros interactivos apenas trará mais responsabilidades para o professor, pois ele conseguirá ir muito mais longe com ele do que alguma vez poderia imaginar.
  9. O maior problema dos quadros interactivos é que eles só por si não são nada. Se um docente não souber usar o software para criar recursos seus, o quadro mais não é do que uma tela sofisticada. O passo seguinte leva à aprendizagem de criação de meios visuais, audiovisuais, e de criação de slides mais ou menos interactivos que podem conter desde conteúdos simples até meios interactivos de aprendizagem e pesquisa, ligações a sites pré-definidos onde os alunos podem ir buscar informação e pode funcionar, paralelamente com uma plataforma Moodle ou outra tipo Escola Virtual, como um meio de incentivo à pesquisa e à aprendizagem, seja na sala de aula, na sala de estudo ou em casa.
  10. E este último aspecto da auto-formação dos docentes será sempre a mais difícil de conseguir se os próprios docentes não estiverem motivados para o fazer. Esse será sempre um aspecto a ter em conta: para além da formação que é dada pelos representantes da marca adquirida, torna-se necessário um apoio diário, amigo, de incentivo, de palmadinha nas costas até que, passados dois ou três anos, o esforço comece a dar os seus frutos e os materiais criados pelos docentes na escola (e para ela) possam ser arquivados numa base de dados à disposição de todos os docentes da escola.

Não tenho dúvidas que o futuro está aí. E a escola vai dar passos enormes nas próximas duas décadas.

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Uma resposta a Adquirir ou não quadros interactivos, eis a questão!

  1. Podemos não usar as tecnologias, mas a verdade é que não podemos fugir às inovações e novas tecnologias!
    Estar à frente é decidir sempre melhor, pois já alguém pensou melhor as tecnologias e aplicações.

    É por isso que, mais do que quadros interactivos, defendo a utilização de sistemas de votação e avaliação!

    Repare:
    Ao contrário do QI, que apenas é utilizado numa sala, um sistema de recolha de respostas pode ser facilmente deslocado.

    O QI é usado por no máximo 2 alunos, mas nos sistemas de votação, todos os alunos participam!

    A avaliação sistemática é muito mais formativa!

    Na minha escola tem sido utilizados em actividades da Biblioteca e alunos e professores estão muito entusiasmados! Espero que a moda pegue…

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