QUAL A AUTORIDADE DAS ESCOLAS?

– Se ele se portar mal, arreie-lhe à vontade, sr. Professor!
Era assim que eu era entregue ao professor primário no primeiro dia de aulas, na minha terra natal. Sem mas nem meio mas. Até que o professor considerava aquilo normal. Quase todos os pais o diziam e portanto era regra. A voz do professor Matos ecoava pelos corredores e escadarias e fazia-nos lembrar aquelas palavras.

Não que eu me portasse mal. Mas, pronto, era a maneira de ele me dizer que, se algo corresse mal, eu apanhava duas vezes: na escola e em casa. Por isso o comportamento naquela época era algo que não oferecia muitos problemas. É claro que ninguém pode concordar com um ambiente deste tipo em que não se gostava do professor, mas antes se tinha medo dele.

Cerca de 47 anos volvidos, deparamos com uma situação completamente diferente. O país evoluiu, houve a revolução, criou-se um regime democrático que tem sido um motor de desenvolvimento do país independentemente das más línguas que discordam sempre que têm que dar opinião. As pessoas só podem amaldiçoar a democracia e o actual regime por má vontade e por desconhecerem como se vivia antes de Abril de 1974. Bem, mas não é sobre esse assunto que estou a escrever.

Quero voltar ao tema do meu primeiro post “ O Meu Filho não Mente!”. Houve um aspecto em que ainda não acordámos desde a revolução, e ele tem a ver com a noção de autoridade e a forma como a escola deve exercê-la. É claro para mim que, quando se deu a revolução, a maior parte da população tinha de facto algo contra as escolas pois elas representavam a autoridade do estado e a sua prepotência. Além disso, o estado mantinha as suas garras bem dentro do sistema de ensino, não permitindo desvarios a ninguém. Que o digam os professores que não estavam totalmente de acordo com o regime. No entanto já se passaram 35 anos sobre a revolução e era tempo das pessoas pararem, e pensarem bem no que se está a passar. Este ano, então, foi rico em situações fora do comum, que meteram telemóveis, e que trouxeram o ambiente das escolas para a rua pelos motivos errados. Mas pensando bem, são estes exemplos que nos devem fazer pensar sobre o que se está a passar, sem dramas nem exageros.

Hoje em dia, muitas pessoas ( felizmente que não são a maioria ) se consideram no direito de maltratar um professor, por uma qualquer razão, muitas vezes falseadas e outras vezes erradas: ou porque o filho foi “agredido”, ou porque o professor lhe chamou nomes, ou porque não teve a nota que merecia, etc. As situações são muitas e não vale a pena estar aqui a esmiuçá-las. Apenas quero chamar a atenção para o seguinte facto: normalmente os pais falam com os professores à frente dos filhos, sem tentarem saber em primeiro lugar o que se passou através de outra pessoa, outro ponto de vista, outra narrativa. Frequentemente dizem à frente dos filhos quais as razões que os levam a discordar do professor e, se for preciso, a fazer queixa dele à Direcção ou Conselho Executivo. É fácil de perceber o que isto provoca no aluno. Se sente a protecção do pai perante o professor, nunca mais aquele professor vai fazer nada do aluno se este tiver tendência para ultrapassar os limites do compreensível. E nem sequer se lembram que aquilo que o filho contou poderá apenas ser uma opinião sobre o que se passou e não a versão integral. Nem sequer a única.

O meu pai costumava dizer que se o professor dizia “–Mata!”, ele dizia logo a seguir “-Esfola!”. Só depois, quando as coisas acalmassem se iria falar mais aprofundadamente. Referindo-se ao aspectos de problemas de comportamento em família, dizia também que se um pai dizia algo a uma criança, a mãe, independentemente da sua opinião sobre o assunto, nunca deveria desdizer o pai, ou vice-versa. É fácil perceber porquê: a razão é a mesma e representa a desautorização que é feita à frente da criança.

Não quero com isto dizer que os professores não erram e que não acontecem nas escolas situações menos certas e que podem criar alguns problemas a crianças mais irrequietas. Mas também não é menos verdade que, se o pai for falar com o professor ou com a Direcção do estabelecimento de ensino, a situação tem tendência a resolver-se por si própria, a não ser que a diferença de opiniões seja fracturante.

É comum ouvirem-se muitas opiniões sobre o que está bem e o que está mal no ensino, mas se se resolverem muitos deste pequenos grãos de areia na engrenagem do funcionamento diário de uma escola, as pessoas podem dedicar muito mais tempo ao que verdadeiramente interessa: a aprendizagem e a formação das crianças. São elas o futuro do país e por isso merecem que nós lhes dêmos todas as condições para que elas possam progredir e serem mais tarde verdadeiros cidadãos, de corpo inteiro.

Mesmo que isso não lhes agrade naquele momento! Mais tarde irão perceber.

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